sábado, 24 de dezembro de 2011

Da guerra fria

Silencioso como um vazamento nuclear
silencioso como o horizonte na Lua

Vim sambando por fora e gemendo por dentro
vim de lantejoula pra provar que brilharia mais -
nunca mais.

Na boca do estômago, as explosões caladas:
quem eu era quis ser melhor do que quem me tornei
quem me tornei quis vazar por todos os lados e
faltou espaço!

Me torno um lixão de novidades
estratosféricas
tristes de passado morto
que não quis morrer...

A deserta guerra das palavras estacionou
dentro do peito meu
e destruiu todo o pouco que restava.

O amor comeu minha guerra?
Do amor nasceu minha guerra.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Vermelho

Acreditando que pintar o cabelo de vermelho seria suficiente para que me tornasse mulher novamente - pois tudo o que se passou me foi tirando minha vontade de, até que me tornei este corpo indiscutivelmente humano, mas indistinto -, merecedora de receber amor mais uma vez... comprei produtos, tintas; pintei: e ao me olhar no espelho soube que era ridícula; alaranjada pelo instantâneo desbotar. A fêmea falsa e incompleta de antes, mas mascarada por uma tintura vagabunda. Afrodite, que me olhava com pena do Olimpo, desceu e me disse que o fogo não basta estar nos cabelos: meus poros, sim, em brasa. Me disse que pouco importava o sangue do batom. Mas um toque pelando, cheio de mistério e desejo. O fogo tem de estar nos meus olhos, queimando os que me olham; para me tornar mulher, o fogo precisava realmente estar me consumindo. De dentro pra fora.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

No dia em que cheguei na beirada do mundo, quis ver o que acontecia se. Então, com todas as forças, joguei a última moeda do meu bolso para cima e para frente. E o espetáculo se fez: primeiro, como um gentil sussurro que se vai transformando em grito. O primeiro a desmoronar foi este supérfluo século em que os aparelhos digitais não suportam quedas ou quaisquer maus tratos. Por cima da TV de plasma desabou a cidade e o capital, os carros, as sopas em lata. E o século anterior por cima, as máquinas a luz elétrica o telefone e depois as carroças as igrejas os muros os moinhos os burros de cara e mais rápido tão rápido que eu já nem podia discernir a cruz caiu o homem que virou macaco caiu o próprio fogo na direção de um sem fim, a bomba explodiu novamente e ninguém se importou porque tudo já era sombra ouvi o leve tilintar metálico sobre os escombros e então fiat silentium. Era o fim de todas as coisas. Os homens ao meu redor, um pouco maravilhados um pouco estarrecidos, logo retomaram o prumo e diziam: vejam como o passado é frágil! Lhe bastou um empurrãozinho... apoiemo-nos no futuro, então!
E iam caminhando sobre aqui que um dia havia sido nosso, respirando precariamente o gás carbônico inútil que era o que sobrou, a fuligem nos olhos, o sorriso empapelado.

Silêncios seguidos de palavras constrangidas

Crave tuas unhas na minha pele, eu não vou gritar de dor. Enterre nas minhas entranhas os teus pecados, eu vou lavá-los com as mãos em brasa, junto com as cortinas e o meu corpo cru. A carne perde-se eu não caibo no espaço que me foi designado; eu não caibo dentro de você e nem você dentro de mim e é por isso que eu aprendi a urrar como um bicho que sente dor e espanta os que se aproximam. Mas de você não. Para você o meu corpo pode ser a tábua onde enterras os pregos da tua raiva. Para você eu abro mão de mim.
Querido,
hoje eu quis que você estivesse aqui. O espírito filosófico está ao meu redor e eu não posso captá-lo por inteiro. Eu queria que você estivesse aqui para escutar também e depois conversar comigo. Eu gosto quando você conversa comigo. Queria que você pudesse estar comigo nos dias muito insossos, para me provocar com as suas frases prontas e seus desejos bobos, e assim eu lhe faria cócegas e nós seguiríamos procurando explicação para tudo o que nos falta. Eu te olharia nos olhos, capturando com a ponta dos dedos os seus traços imprecisos, enquanto você falaria, falaria muito, desconsiderando o meu comportamento inadequado. Vê como amar pode ser simples? Vê como viver pode ser tranquilo? Mas você não está comigo agora e o tempo passa lentamente.
(...)
A morte me assusta. Ela é como uma sombra, uma coisa amorfa a qual optamos por ignorar até que ela se levanta e cobre nossas vidas com ausência. A morte é como o vento farfalhando as folhas no quinta - e de repente torna-se tempestade, escancara as janelas e arreganha os dentre numa trovoada. A morte me ronda e puxa os meus pés durante a noite. A morte do outro me aterroriza mais do que a minha própria - me faz questionar o silêncio, as opções que fiz, os meus "e se's". A morte do próximo me faz temer estar sendo insuficiente, porque eu sou insuficiente.

mais um fragmento

(...) um bicho enovelado em suas próprias mini-novelas, enviesado numa vida sem saída, ensimesmado em cima de uma cama sem lençóis nem esperança, um bicho manco, esperando a própria vida se resolver e como não se resolvesse, apenas afundava um pouco mais nas cobertas e por lá ficava, silente. (...)

Amor,

jamais poderei ser tua. O tempo tem me mostrado a verdade: aquela verdade cruel que se nos apresenta nos fins de tarde. E ei-la: jamais poderei ser inteira tua. Isto porque devo ser minha antes. Para fazer a minha arte, devo ser minha em primeiro lugar, átomo por átomo, célula por célula. Depois de me ganhar toda devo receber o mundo todo, sem medo do mal e dos dias tristes. E então, meu amor, e só então poderei ser tua. Mas já terei perdido tanto disso que sou hoje, e você terá perdido tanto que é... que talvez nunca mais nos encontremos...

Iemanjá,

quero beber das águas do teu universo, nascer como a flor branca que chora leite e vida, tecendo com suas pétalas o próprio dia e o próprio sol. Quero aconchegar minha cabeça no negro peito teu, que arfa conforme as ondas batem na grande pedra que Deus vive a esculpir, e neste ritmo pulsante e vital quero poder rodar com as minhas saias, de modo a permitir que pela minha perna escorra todo esse mal, toda essa sujeira que nos impede de continuar com coragem. Quero que o teu sal me lave o corpo e me permita, mais uma vez. Quero que a boca tua beije meus olhos, me abençoe e me permita o último mergulho... a cada dia.

sábado, 26 de novembro de 2011

Pelas cerejeiras em flor
E pelo tempo que temos medo de tocar
Pela delicadeza da vida
Pela sordidez da vida
Nós continuamos procurando um lugar
para retornar
um alguém
onde abandonar o corpo?
Pelos ciprestes altivos
pelas abelhas em guerra
nós também desejamos o equilíbrio
nós também...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Estrelas elétricas

As noites na Grande Cidade são belas como a saia com que rodopias quando toco os atabaques para você dançar. Nas pernas tuas acendem as luzes dos grandes edifícios da cidade que eu amo e para a qual corro sempre que sinto saudade, quando posso, quando nós nos permitimos retornar. Enquanto batuco o surdo e a caixa, vejo teu movimento leve entrecortando as lâmpadas dos predinhos onde moram as velhotas que se despedem de tudo isso e as crianças com as vistas ofuscadas pelas tantas novidades: e acredito que o teu corpo faz parte de mim do mesmo jeito que a cidade me pertence e eu a ela pertenço. Quando você volta sambando na minha direção eu tenho certeza de que não há nada mais perfeito que as estrelas elétricas dos postes nas ruas, que na verdade são as longas pernas tuas abraçadas pela saia negra e dourada da Noite da Grande Paz. E então me agarro a esse momento, implorando aos Deuses para que eu possa ficar aqui para sempre... até que o batuque acaba e eu tenho de ir embora.
LÉO - As amoras vieram... e se foram. As pitangas vieram... e se foram. Mas eu continuo aqui, como sempre caminhando todos os dias sob as mesmas árvores que já estão ansiosas por novas primaveras. Igual aos outros anos, eu. Igual às outras estações. O sabor doce das amoras já sumiu, e o azedo das pitangas continua azedando o pouco que eu podia encontrar de delicioso nos dias. Eu caminho sob as árvores procurando uma última fruta, uma última cor no meio de tanta, tanta monotonia. E nada ou quase nada me aparece: uma caída no chão, esperando a terra a absorver novamente; outra pendendo no galho, mascada por ave ou outro animal mais rápido que eu. E eu, igual a sempre, sem qualquer vida nascendo novamente, aquele velho outono corriqueiro, igual a todos os outros dias, vazio por dentro, por fora, ao redor. Vazio de novo, como eu já esperava que seria.

sábado, 19 de novembro de 2011

Tempos difíceis virão. Cabe a ti chafurdar no perdão e confiar - de uma vez por todas. Estica os teus pés sobre o meu colo e entrega o peso do teu corpo e dessa alma cheia de marcas queimaduras rancores, acreditando que os meus músculos bem treinados serão capazes de te impedir a queda - e eles serão. Me entrega... e se descobrirá leve como bicho, manso, agora tudo bem. O mundo é pesado demais para você carregar sobre a cabeça, pelo menos desce para as costas! Os tempos difíceis se aproximam, e a lágrima é apenas água com sal - por quê sentir vergonha das suas? Cada um carrega a própria dor, o próprio parto. Permita-se: precisará disso para sobreviver no futuro. Escuta: eu estou aqui conversando com você.

Querido,

quando penso em amor, devo admitir que só você me vem à cabeça. Amor, amor, amor. Acho que te amo. Já senti tanta coisa por você. Quando fui apaixonada, o que eu sentia não era amor. Quando fui rejeitada, o que eu senti não foi o amor. O amor foi o que eu fiz dessa paixão e da rejeição que sobraram. Aos poucos a raiva e o desejo, em fogo baixo, se misturavam, cosidas de modo impenetrável como a roupa que eu jamais desgrudei do corpo. O asco e a atração tornando-se uma coisa única - mais que racional, mas espiritualmente... O meu amor pulsa como meu sangue e como meu pus... e não posso me explicar, como não pude escolher quando foi a hora. Mas hoje o teu nome é o meu significado para o amor, porque transcende o desejo, transcende a desistência, transcende, apenas. Eu tenho medo, enfim, que ele morra - porque creio que isto que sinto é belo e é grande e é único. Me apavoro por me afundar distante de todo o resto que sou, se morrermos. Ficarei para trás por estar na frente do mundo - e ele jamais me alcançará. Cuida de mim. Cuida, estou com medo. Estou com medo do que eu sinto por ti.
Tudo apodrece. O corpo. E
a alma também.
Pois que a eternidade
se apodrece aos poucos
Deus apodrece aos poucos
o Dia apodrece - todo dia.

Fragmento

E então: o vácuo. Mais uma vez abandonado no escuro. Como se houvesse desaprendido a ler a vida em braile, vaguei pelas ruas desacorsoado. Horas, horas, horas em que revivi toda a nossa histórida desde o dia frio em que nos conhecemos até as últimas tardes de novembro, revivi os últimos 15 anos, mais uma vez jogados no vazio. E a explosão que fora nosso encontro na rua.
estou te escrevendo apenas porque jamais lhe endereçarei esta carta. Nos últimos dias tenho sentido um alívio. Porque nós estivemos juntos e eu nos perdoei: a mim, por todo o orgulho e por ter permitido por tanto e tanto e tanto tempo ficar com essa sofreguidão, essa mão segurando sem piedade meu pulmão, a claustrofobia de mim mesma; e a você, por tudo o que ficou faltando para me fazer feliz, por todas as coisas pelas quais eu aguardei e me frustrei inutilmente... Então este alívio. Porque agora finalmente posso me livrar de você: desentravar o teu nó é te afastar do meio da minha estrada como a pedra de Drummond e finalmente seguir mesmo sem você. Paradoxal, não? Permitir o meu amor por ti é, ao mesmo tempo, permitir que esse amor morra, se isso for o natural. Antes não: tamanha era a raiva que eu sentia com o amor embolorado que tinha sobrado nas paredes da minha garganta. E eu não podia gritar...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Querido,

estou te escrevendo porque, como explicar?, porque percebi que estou me descobrindo - mais uma vez!... -  e estou descobrindo coisas em mim que você talvez nunca compreenda, já que você se segura até o fim nos teus jeitos, nos teus conselhos e no teu ponto de vista: e eu entendi! Agora sei que eu não. Depois de experimentar tantas coisas tantos dias com outras cores tantas roupas sujas tantas noites tristes tantos outros tantas coisas, me percebi uma mulher que não prefere nem pouco em muito tempo nem muito em pouco tempo, uma mulher que não é doce nem salgada - mas de vez em quando mais azeda do que você imagina!... Eu estou aprendendo a conviver comigo, como sempre. E ultimamente faço coisas que você não conhece. Pinto a boca de vermelho e saio à noite, danço e beijo homens sem saber seus nomes. Me apaixono por uma noite e quebro os saltos altos! E pulo na piscina de roupa ou tiro a roupa pra pular na piscina. Estou livre para me permitir ser leviana de vez em quando - o que eu nunca poderia ter sido antes - e é bom. Não se preocupe! Me respeito. Mais do que nunca, não quero me fazer mal. Não se preocupe. Não estou me tornando rodriguiana nem niilista. Nem fútil ou supérflua. Eu não caibo nessas palavras; apenas isso, sou leviana n'alguns dias. E no dia seguinte passo os dedos sobre a maquiagem borrada nos meus olhos, escovo os dentes e volto às aulas. Aos ternos.

sábado, 12 de novembro de 2011

Melissa fala para o cachorro aquilo que sempre ouviu da sua mãe

ABRE ASPAS

Vem aqui que eu vou acabar com a sua vida. Vem aqui agora! Quem foi que mandou você fazer isso? Quem foi? Sua chata. Você é muito chata, tão chata que ninguém te aguenta. Sua criança idiota, por que é que você faz isso com a sua mãe? Hein? Eu não te suporto mais, sua idiota. Sai da minha frente agora! Insuportável! Ah, você vem me morder? Eu acabo com a sua vida! Insuportável!
(...)

FECHA ASPAS

Retirado da velocidade do som entre a fina barreira que delimita a minha casa da casa dos meus vizinhos. Melissa tem oito anos. Sua mãe Aline já gritou essas palavras para ela muitas e muitas vezes nos últimos oito anos. Alguém teria de ouvir a raiva que Melissa aprendeu...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

És de mim um membro abortado

És de mim um membro abortado:
e eu cavoco suas feridas como um bicho faminto
que no corpo outro procura sua subsistência,
Ao mesmo tempo em que bombeio o sangue teu
como se minhas mãos fossem um segundo coração
que te pudessem manter vivo.

És de mim um membro abortado
e no silêncio que se faz a cada dia
te procuro vivo dentro do meu pulso em chamas
e do meu corpo móvel estancado no mesmo lugar
como sempre, como eu escolhi
Como nos foi predestinado.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A realidade é a carne crua exposta em cima da mesa:
mesmo depois de morta 
continua
sangrando.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Eu ficava assim triste pensando 'não guarda mágoa de mim não!' eu ficava assim meio muxoxa refletindo sobre cada um dos passos do lado de cima da corda bamba, sobre todos os erros-quase-mortais nos saltos-quase-mortais que eu tive de dar para driblar a própria morte e aí eu lembrava que teve um dia pior do que todos os outros em que eu estava pior do que em todos os outros e que nesse dia eu te falei coisas duras e pisei nas suas unhas encravadas nos dedões dos pés e se te pareci insensível às lágrimas de dor ou de raiva foi porque eu precisei sabe? Não guarda mágoa de mim não porque eu sou um bichinho arisco de vez em quando, desses que se escondem debaixo do sofá e quando muito muito muito acuados abrem as patas e lá existem unhas que podem arranhar um pouco mas é que eu sou bem humana mesmo que às vezes lhe pareçam incríveis os saltos-quase-mortais a cabeça na boca da leoa ou a grama de alfinetes eu também não sou infalível e pensei mesmo que por um instante insano eu pensei que você precisava ouvir ou que eu precisava falar pra você ficar bem. Não guarda rancor não coração você é a minha corda bamba entende você é a leoa que eu tenho de juntar coragem para me entregar, me encontrar, enfim...

domingo, 9 de outubro de 2011

(...)

O pano rasga de exausto por carregar o corpo ou as moedas. O pano esfregado rasga suas fibras ao meio, aos mols, e destitui seu próprio poder, sua própria função. Meus bolsos se rasgando de pouco, dia após dia, sofrendo erosões cotidianas, intemperismo, tentando desgraçadamente suportar os meus acessos de raiva e ingratidão, em que cerro os punhos puxando-o em todas as direções. O papel rasga suas células jovens. Rasgo as palavras que te escrevi n'algum lugar do passado: palavras como 'amor' e 'saudade' sangram quando rasgadas, assim como os pulsos ébrios dos amantes desmedidos. Minha lâmina e minha veia em total comunhão de bens - todas tornando-se una -, a pele aberta como um envelope e os líquidos em jorro, as moedas no bolso fatigado; construídos por tecido vagabundo (meu corpo e meu bolso) sangrando e chorando a perda do outro, te escrevo no corpo com esse sangue fresco que é a morte ativa daquilo que podia ser eterno atravessar os séculos post mortem etc. Meu coração é o fino feixe de força que me força a fingir a ausência da fúria, a fuga discreta pela porta lateral, os olhos fixos no além, o corpo físico no aquém, um último suspiro... rasga, meu coração.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sobre a saudade

Saí para andar pelas ruas do meu bairro... para ver se encontrava nas esquinas e quarteirões, que são a minha história, um motivo paras minhas perdições. Então caminhei por todas as ruas que banhadas de sol ou de lua ou da chuva de outrora enfeitam a memória destituída de ciência ou coerência. Nos meus passos, que alternam entre o desequilíbrio controlado e o equilíbrio precário, percorri caminhos que há muito não se delineavam sob meus pés. E então concluí: aqui jaz o meu passado. Enterrado por um dos muitos prédios que eu assisti serem construídos da minha varanda - e hoje já se tornaram decrépitos, tijolos mal-empilhados sobre uma terra mal aplainada com a pintura gasta e a arquitetura obsoleta. As casas para alugar juntando pó e saudade, que foram construídas numa época outra, apesar de há tão pouco tempo, se erigiam acima da minha miséria, do meu desespero: cadê o campinho em que eu soltava o cachorro e depois tinha que sair correndo atrás para não perdê-lo para sempre? A guia mal feita, com coqueiros que impediam a passagem, agora é um calçadão feito por designers - mas também já se tornou demodê. Fugi para os refúgios de antes: Ana Carolina? Não mora mais aqui. A Helena do 24 se mudou faz tempo. André? Que André? Estou sozinha entre escombros de mim mesma. Porque então eu compreendi: eu sou esse bairro que já é uma fruta mordida oxidando em cima da mesa. Eu sou esses prédios desinteressantes aos olhos das novas gerações de compradores moradores etc. Eu sou a calçada nova que já é velha - e até o cachorro se perdeu para sempre...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Da pacífica loucura

Nossa loucura já foi tratada. Já fomos educados, castrados, domesticados: quantas porções de vegetais, nenhumas porções de gordura, uma cápsula de óleo de alho para o coração, não gritar de felicidade ou infelicidade extrema. Aliás, não sentir felicidade ou infelicidade extrema. Não catar fruta no é e não comer alface sem antes esterilizá-la. Não amar na frente dos outros. Nossa loucura foi consumida, extinta, e nós engolimos toda essa sanidade como quem engole um tapa na cara - e acreditamos que a escolha foi nossa.
(E como não dizer que essa também é uma loucura?)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Querido,

estou te ligando para te contar que o amor morre sim, viu, que sem cuidado a grama cresce até além do joelho e não se pode mais caminhar. Eu queria, queria que você soubesse que aos poucos a lembrança tua se torna erva daninha e eu sou forçada a te arrancar, assim pela raiz, sem muita dó - pois que mesmo sendo uma coisa ainda um pouco viva, atrapalha a beleza do meu jardim. Nem um interesse no meio da tarde, o amor vai definhando, assim, numa cama de UTI, sozinho no horário de visita: pra quê lutar pela sobrevivência se não lhe é relevante? Era só isso que eu queria, te lembrar de novo e de novo, para não ser uma surpresa quando o meu amor por você estiver sepultado - mas aqui não cresciam flores?

sábado, 10 de setembro de 2011

Amor morre na pausa da música.

Na quinta-feira última, o amor finalmente sucumbiu, após meses de intenso tratamento e tentativas repetidas de renovação. Parece que tentaram postergar a perda apertando o pedal direito do piano, mas logo o fôlego acabou e o grito tornou-se suspiro e daí: silêncio. Contrataram o melhor afinador da Escócia, da França e do diabo, mas os especialistas afirmam que o amor não estava desafinado nem desajustado, estava morto mesmo. Os médicos legistas isolaram a área após algumas horas e o corpo amorfo ainda está em estudo. A causa mortis está sendo deliberada: alguns afirmam que o amor foi abatido por uma doença letal, apenas. Outros radicalizam, gritando com cartazes nas ruas que foi homicídio e reivindicando a prisão do culpado. Existe também a ala dos que creem na morte natural: "Velhice, desgaste, são processos que assombram todos os relacionamentos, é cientificamente comprovado. Nos resta questionar apenas o motivo de este ter durado tão pouco tempo", afirma um dos médicos responsáveis pela autópsia, que preferiu não se identificar. O amor vinha se queixando de falhas em seu funcionamento há alguns meses, segundo fontes, mas havia passado por uma alta animadora - que se mostrou momentânea. O corpo inerte foi encontrado na noite da quinta-feira, aparentemente vitimado por falência múltipla. Não havia ninguém no recinto, mas os vizinhos afirmam ter ouvido músicas no piano horas antes. O corpo aguardará no IML (Instituto Médico Legal) por 15 dias até que alguém faça o reconhecimento do corpo e, em caso negativo, será enterrado em vala comum.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

- Foi assim: acabou. Acabou porque... acabou porque nós não cabíamos em nós. Não! Foi porque eu não cabia dentro dela - acho que nunca coube. Sabe quando você encontra alguém que se sobra por todos os lados, e por isso mais nada lhe cabe? Ela é assim: vazando seu jeito, vazando suas graças e sua alegria: e só. Meu corpo não conseguia entrar no dela, porque sobrava corpo dentro do seu próprio corpo. Meus sonhos jamais poderiam ser os sonhos dela, porque de sonho ela já se quitava. E então... então ela descobriu que eu não cabia nela, e não pôde nos suportar. E ao mesmo tempo eu descobri que eu jamais poderia fazer parte dela, e não pude nos suportar. Não nos vale discutir o amor que ela sente ou que eu sinto - porque nós sentimos! Sentíamos, sei lá... Não! Não morreu. Nem eu por ela nem ela por mim. Nos amamos. Mas não podemos, eu não posso. Sei lá.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Fluxo de Consciência: Desespero

Me apoia na ponta dos pés me segura na prontidão do abismo e me prepara para alçar o último vôo em direção ao desconhecido e aumenta o volume da música até que seja tão alto que eu me esqueça dos meus próprios pensamentos e possa descansar de mim mesma já que há muito venho me torturando sem ter para onde fugir, cuida de mim e me leva para longe de todo o mal amém me guarda das dores que me açoitam assim assim no plexo solar assim assim que antes de machucar qualquer outro é a mim que dilacero, esquartejo é a mim que destruo antes de olhar ao redor e encontrar você que existe e não precisa de mim para ser mas eu preciso de você antes de todo o resto assim assim porque você tem a paz que eu preciso para mim para sobreviver a mim mesma antes de tudo o que vem depois de mim segura quem não pode mais se segurar

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Ode ao amigo, comigo.

A velha sábia que mora dentro de mim sussurrou aos meus ouvidos: pouca coisa sobrevive ao tempo-espaço. É preciso cuidar. Mais que isso, é tempo de cuidar. Porque as relações fenecem. A tua melhor amiga hoje já é quase uma estranha; o teu porto seguro não lhe faria mais nada; a tua companheira para qualquer aventura não te liga para bem nem para mal; o teu grande-amor-pra-vida-toda já não é mais amor, tampouco para a vida toda. Por isso é necessário agarrar-se ao que sobra, lutar mesmo como uma guerreira, jogar contra o destino na tua capoeira, desengonçada ou não. Brigar com as tuas unhas de gata, dentes de loba, com a tua força vibrante: para que não haja adeus. É preciso que lutem juntos, vocês, dois a dois. É preciso que ainda haja o inadiável desejo de saber (qualquer coisa), porque se não perde-se o sentido do elo. Perde-se para a eternidade: e vocês se transformarão em cartas antigas, fotos amareladas e vídeos perdidos que falam de um tempo que foi tão bom...
Por isso: é preciso cuidar.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A natureza apodrece.
A natureza apodrece
o homem, o bicho e a flor.
A natureza destitui-se
e transforma o próprio sumo
em sua própria mortalha.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

À flor da pele

Poros. Toque.
Me enrosque
me enlace.
Me leve com você.
O amor não morre assim:
a pele também tem memória
e não vai te esquecer...

sábado, 13 de agosto de 2011

Eu vi o mar

A palavra está morta. Morreu numa tarde quente de quinta-feira de agosto. Assim: pendeu para o lado e perdeu suas forças vitais. Ninguém percebeu quando. Mas não havia sobrado nada. E o homem é um bicho feito de palavras: em cada gesto. Em cada pensamento. Em cada intenção. Já não havia sobrado nada. Portanto, o humano homem havia morrido naquela quinta-feira de agosto. E não havia mais o quê desenvolver. Jamais se poderia discutir a peregrinação das aves ou o papel da memória na pedagogia grega. Jamais se poderia elucubrar dias e dias sobre Deus, a Física e o almoço do dia seguinte. O que sobra de nós quando não há mais a palavra??

- E o que simboliza a alma humana?

Eu vi o mar

A palavra está morta. Morreu repentina no momento exato em que você beijou minhas mãos e me segurou bem perto. Pela primeira vez não havia a necessidade de palavra alguma: e ela soube. Quando os nossos corações sentiram tamanha paz e tamanha comoção e tamanha sincronia nós atingimos tal nirvana ou qualquer outro nível elevado de alma. E então a palavra desfez-se em poesia - não o poema escrito no papel, mas a Poesia dos instantes de silêncio que separam a última palavra de raiva e a primeira de amor. Naqueles 10 segundos, a palavra estava morta para sempre: nos centímetros que nos distanciavam, na casa, no cosmos, dentro de cada um de nós. E renasceu junto conosco, novamente eterna como nós jamais seremos.

- E o que simboliza a alma humana?

Eu vi o mar

A palavra está morta. Enterrou-se sozinha através dos séculos: definhou conforme os poetas morriam e mais ninguém se dispunha a senti-la ao invés de analisá-la. Ora, e o que é o homem sem a palavra? Um corpo que olha o tempo. A palavra morta, o próprio tempo morto. Mais nada pôde acontecer. 

- E o que simboliza a alma humana?

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Quando o caos é tamanho, sabe? Quando existem milhares de pessoas ao teu redor, todas porque sim, todas porque estamos juntos nisso seja lá o que isso for, sabe? Quando para não enlouquecer com o som dos apitos você tem de apitar ainda mais alto?! E então eu apitei. E gritei nossos hinos de fúria. Fúria porque sim, porque estamos juntos nisso seja lá o que isso for e o que isso é; é fúria: e raiva e indiscrição e a eliminação total do desejo de ficar 'assim tudo bem, mais ou menos mas a gente vai levando uma dor aqui um pesar ali'... Fúria porque perdemos a disposição para aceitar: Que você me subjugue. Que você me desrespeite. Que você me esqueça numa viela escura tentando me recompor da sua violência. Do seu descaso assassino. E estávamos ali, gritando que ser mulher é muito mais do que a tua força física sobre o meu corpo: e então eu era mulher. Em toda a minha intensidade. Afirmando ao mundo: sou mulher e isso é merecer. O teu respeito. O teu e o de qualquer um. Cantando num mar de outras mulheres mulheres como eu, ansiando o final feliz, o espaço, o tal do direito ao grito. Então nós gritamos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A Festa

De repente, me dei conta: você estava comigo. Apesar dos ventos contraditórios, das dunas e pirâmides que se haviam construído entre nós, apesar dos desastres naturais que insistiam em nos separar, nós dois conseguimos: estávamos ali, no meio daquela sala dentro de um mar de seres humanos completamente alheios à nossa identidade, olhando um par'alma d'outro. Eu jamais poderia olhar ao redor. Porque era você na minha frente. Éramos só nós dois, completamente alheios à presença de um mar de outros seres humanos. Havíamos conseguido. Havíamos conseguido... quebrar a parede que nós mesmos construímos entre nós, sem que qualquer a houvesse desejado. Por isso era um momento mágico. Porque as dunas, as pirâmides, os ventos, os desastres, a parede, o gelo, a barreira, o abismo - todas as metáforas que eu poderia citar para explicar a distância enorme que existia no metro que nos separava - havia cessado. Assim, de repente mais nada fazia sentido: os últimos meses silentes, o choro escondido do resto do mundo, as cartas jamais endereçadas - e também as endereçadas -, tudo: finito. Só sobrou eu, você e a distância de um abraço.

De mais um coração partido:

ABRE ASPAS

- É assim, Jú, doi pra caralho. Aí você chora, chora, chora, e um dia passa...
- Você me promete que passa, Ju?
- ... não... porque eu ainda choro.

FECHA ASPAS

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

E eu lhe aviso: tu nunca mais entres com esses teus pés sujos no meu templo, pois ele me é sagrado. Fui eu que construí. E tu sujas teus pés com teus pecados infames, com teus trejeitos podres de quem não aceita dividir - e entras no meu piso, ultrapassas os arcos da minha entrada, pisas sem qualquer remorso nos tijolos que eu empilhei - eu sozinha, sim? -, eu empilhei no meu coração e tu me trazes a terra mofada e impura e me levas toda a paz que eu havia conseguido com sofreguidão manter incólume, pura, assim, eu que selei estas minhas paredes com o sangue e o suor que vazaram da minh'alma para que construísse algo que me pertencesse acima de todas as coisas... mas teus pés sujos de areia e poeira espantam minha luz e tu me roubas, me extirpas o mármore etéreo, que foi tudo o que eu consegui para mim enquanto estivestes longe... por isso afasta-te! Eu lhe imploro, já que não posso mais que isso, eu lhe imploro. Nunca mais aparece com o teu egoísmo para macular o pouco de paz que ainda me resta.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Foi assim:

O toque macio de grão por grão, como se o mundo me acarinhasse. A pele. Envolvendo um corpo estendido na areia. Como se o vento fizesse cafuné nos meus cabelos, cantando baixinho que eu ainda não morri. E eu jurei que lutaria com todas as armas: assim, uma esperança absolutamente inédita explodindo de dentro para fora, calafrios, tremeliques, danças na pausa que se fez, dentro de um abraço de concha e areia. E então: desejei. Como nunca antes. Desejei ser muito, muito, muito feliz. Com essa simplicidade toda. Desejei ser feliz e imensa. Desejei ser plena. O gozo, o gosto bom de ser livre. Muito livre e muito plena. Era isso, Deus - ou os orixás, Iemanjá, o Divino, Zeus, Amon-Rá, todas as entidades realmente poderosas desse cosmo ou dessa alma que escreve - me entregando em cada grão de areia um motivo para. Um mol de motivos para. E eu fui.
era tudo o que sobrou daquilo que um dia nós fomos: uma raiva profunda; um rancor amargo; quem sabe um certo ódio latente, prestes a explodir. E uma saudade, daquelas de olhar para fotos-bilhetes-e-outros-sinais-daquilo-que-um-dia-nós-fomos e ficar assim se perguntando o que teríamos sido se, ou elucubrando sobre qual seria seu paradeiro ou se porventura você ainda pensaria em mim nas tardes mais ou menos ensolaradas de setembro- ou qualquer outro mês. -, como aquelas de quando nós fomos. Foi o que sobrou. E por mais que tentasse me livrar dessas últimas ruínas, não havia Adeus completo. Eu ficava listando quais são os 5 passos do luto, aquela baboseira toda de raiva-negação-barganha-depressão-aceitação e percebi que eu alterno entre elas sem nunca chegar na aceitação. Sabe. Acho que é porque você não morreu - nem eu! -, nós só não somos mais. E aí eu às vezes acordo com o gosto do-que-sobrou-daquilo-que-um-dia-nós-fomos na boca, e é um gosto ocre de fracasso, de impotência, sim? E então não posso mais dormir e fico mastigando essa coisa amorfa e podre que é o amor-que-acabou-sem-que-realmente-houvesse-acabado... até o próximo amanhecer.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

,

o mundo é ingrato a todos os desmedidos. A mim, que amo desmedidamente, a ti, que és a indiferença incontrolável. Cuida, rapaz, cuida dos que te protegem, pra que você não fique sozinho, realmente abandonado na sarjeta ou no escuro do quarto. Por mais interessante que você seja, ninguém suporta por muito tempo ter certeza de que é dispensável. Por isso cuida, explicita as coisas que se passam aí dentro, seja mais que intenções: sê ações. Segura na mão do outro, estuda bem quem se propõe a atravessar ao teu lado; não deixe de lado os que te querem bem. Leva isso pra vida, menino, pra não acabar solitário no mundo.  Pra não acabar vagando, sem ter pra quem ligar quando você sentir medo do fim. Cuida, cuida, repito, é preciso cuidar e para cuidar é preciso coragem para olhar para as feridas pestilentas de quem se põe ao seu redor.  E todos temos feridas abertas, o sangue escorrendo, infecções, cortes, enfim. É preciso perder o nojo da humanidade para encontrar o seu lugar dentro dela. É preciso doar de si: o sangue, um órgão ou apenas um abraço, um mero sorriso cúmplice, um jeito de se afirmar 'aqui contigo, meu irmão'.

domingo, 17 de julho de 2011

Vó,

hoje lhe escrevo porque, como sempre, não pude falar quando foi a hora. E preciso falar, mesmo que você jamais saiba: eu me esqueci, vó, que a morte também vem para os leões e outros Seres Especialmente Fortes Apesar De, eu havia me esquecido mais uma vez, vó, que a morte também vem para você, apesar de você ser uma mulher de garras e dentes e unhas e todas as outras formas de se proteger e se manter firme: afinal, como você poderia se proteger de si mesma, das falhas que podem ocorrer dentro do seu corpo sem que você possa se colocar na frente de hemoglobinas, plaquetas, leucócitos e outras coisas minúsculas que insistem em não funcionar, em sangrar por dentro, em impedir o perfeito funcionamento, etc? Como você poderia entrar dentro do próprio cérebro e impedir mais um acidente vascular prestes a ocorrer, a qualquer momento? E foi ali, vó, dentro daquela sala comum de UTI, vendo você dormindo tranquilamente - apesar de. - que eu pude ter certeza que quero ser uma mulher como a senhora, dessas que acordam e, com um sorriso banguela e os olhos cheios de lágrimas de gratidão porque a sua netinha veio visitá-la, juntam a coragem para humildemente pedir desculpas por ter estragado o meu aniversário - sendo que aquele momento estava sendo o meu maior presente: o teu sorrisinho banguela e a tua mão com eletrodos ou seja lá qual for o nome daqueles fios pendurados monitorando a tua força vital, vital, humana vó! E então agradeço às Forças que regem o universo, que não foi desta vez que te perdi pra sempre, mais uma vez sem nunca ter dito que te amo, te amo te amo, nunca disse porque nunca juntei coragem, nunca porque você sempre foi forte demais: e então você ali com toda a coragem do mundo de lutar contra o medo da morte.
Obrigada, vó, por continuar me ensinando, mesmo sem perceber, na maca com eletrodos e um sorriso sem dentes...


E por favor alguém me traga essa dentadura!!

(Que é pra você morder a morte com toda a tua força. E afugentá-la.)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Andrajos

que era esse meu novo desejo de ser outrem: sei lá, fazer coisas erradas e não me importar muito. era esse meu novo jeito de fugir, porque estive e estou precisando de escapes, escapes já que não tem sido fácil ser esse monte de casca e pele e dor orgânica que eu me vejo hoje, diante desse espelho que é uma lasca do infinito e me mostra: indigente. tô sentindo tanta coisa ruim, sabe, diriam que estou me destruindo e acho que sim. é a falta de escapatória. vejo o Mar e o Mar é gigante mas não tenho como me aninhar nele e nele esperar tormentas tempestades e outras tragédias naturais - ou não - passarem. entende?, por isso ser outrem, para sobreviver por um fio de cabelo, irreconhecível ao resto do mundo ou de mim mesma, irreconhecível porque aquele último abraço continua tão dolorido aqui dentro, como um último abraço de adeus quando era 'não, fica por favor' mas não há como ficar, estou precisando de carinho, eu acho... um lugarzinho quente onde possa me aconchegar e que alguém venha e faça cafuné nos meus cabelos, sem me dizer nada, sequer uma palavra. Repito: não preciso de palavras. Porque palavras dissimulam demais e dissimulação já é a minha arte: quando tudo que eu quero é chorar mas rio alto que é pra que todos saibam que está tudo bem mesmo quando não, não está nem um pouco bem, sabe? E esse meu riso estratégico é um jeito de ser outro ser, mas um ser incompleto porque voltar pra casa é perder a persona e perder o brilho ou seja lá qual palavra se quer utilizar nesse momento, eu sou opaca... triste... fraca...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Querido,

hoje preciso de ajuda. Um ombro, uma mão, um corpo, qualquer coisa que me apoie de qualquer jeito... preciso poder abandonar meu corpo, minha cabeça, minha mão - qualquer coisa - noutro ser pulsante. Não preciso de tua voz nem de tuas palavras porque não preciso ser consolada: preciso de mais que isso. Preciso poder permitir que meu choro inunde rios, rios amazonas tejo nilo prata tigre paraná tamisa...  Preciso me deixar do lado de fora da sala, junto com o casaco e os sapatos, e assim descobrir até onde minha força me leva. Preciso que algo muito bom me aconteça, para que eu continue sendo capaz de sonhar: que vai melhorar, que vais mudar, que o dia ainda não acabou. A tua partida é um pouco como a minha partida, me entende? É como se levasse contigo mais um pedaço meu - e tenho perdido tantos... Ao ultrapassar essa porta te perderei para sempre. E, portanto, me perderei também. Como te resgatar?, me responda por favor! Como te resgatar se tudo sempre te leva mais pra longe, tão longe que meus braços são incapazes de te segurar sequer pelos trapos da roupa? E hoje eu sei. Hoje eu sei que não há mais volta. E talvez me faltem forças pra suportar mais uma vez...

domingo, 10 de julho de 2011

and i love you so much, i'm gonna let you kill me

o plano é te arrancar da minha vida aos pouquinhos: como quem esfrega desenfreadamente a pele a fim de se livrar de uma tatuagem. Uma foto que retirei do mural (mais uma vez), achando que retirar fotos de um mural seria suficiente para me livrar de um parasita que há muito se escondeu entre os meus cabelos, n'algum canto escondido da pele, e me tem atormentado os pensamentos, as noites insanas de insônia etc etc etc. Como se não me permitir ler tuas palavras fosse o passo decisivo pra não mais ser atingida; mas sou atingida pelos pensamentos teus, tão perto que sou capaz de sentir tua presença e seguir teus passos. Sem anestesias, com facas pontiagudas corto minha pele, como se uma sangria fosse capaz de estancar o veneno que é bombeado não apenas para os órgãos, tecidos, células etc etc etc mas para mais dentro, mais, mais... tão dentro que às vezes creio que o que me ocorre é morte múltipla, parada cardíaco-cerebral-almática entre outras coisas... então finjo que não e ainda sorrio enquanto rasgo, queimo, quebro, rabisco, escrevo palavras e palavras cheias de raiva, rancor, mágoa...

inócuo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

, e é por isso que me sento aqui na calçada e converso com você. Quer dizer, falo com você, porque sou uma daquelas mulheres que quando começam a divagar, o outro não tem vez. Mas eu já sei o que você tá pensando: em contar aos seus amigos que uma desesperançosa te interceptou no ponto de ônibus, bem na hora em que você ia abrir uma página de cruzadinha. Odeio pontos de ônibus porque sempre fico me perguntando se todas as pessoas estão indo para o mesmo lugar, se eu estou indo para o mesmo lugar que todas as pessoas... odeio também esses ônibus que dão tantas voltas em todas as ruas cinzas que até me esqueço do meu destino. Um cigarro cairia bem agora, no meio deste discurso. Mas eu não fumo. Se tivesse vontade, fumaria: mas não tenho. Nunca tive. E agradeço sempre por não sentir vontade de algo tão masoquista. Também não bebo muito. Quando tenho vontade, bebo. Mas não tenho vontade muitas vezes. O problema é que quando vem, vem um desejo louco de beber todas: conhaque rum vodca pinga vinho o que me derem na mão. Só sinto vontade de beber quando não suporto mais a realidade. E eu vou te dizer, menino, às vezes a realidade é a-ter-ra-do-ra.  Medonha, sim? Sabe quando você vê um filme de terror tão terrível que passa meses - meses! - com medo de olhar através das janelas? A realidade é bem isso que está atrás da janela. E às vezes eu tenho um medo fo-di-do de olhar através. É bem isso mesmo, menino, você vai sentir na própria pele, vai ver tudo com esses teus olhos castanhos. Ai ai ai... a vida costuma brincar de pega-pega com a gente...
O meu ônibus chegou! Você vem?!

Então nós não vamos pro mesmo lugar!

domingo, 3 de julho de 2011

Que seja doce,

eu implorava aos deuses e às forças motivadoras. Que seja doce e que seja natural, porque afinal quem é que suporta sentir dor por tanto tempo? Que haja luz, meu bem, pra você me olhar nos olhos quando chegar a hora. Uma garrafa de conhaque a tiracolo, que seja lúcido meu amor. O ponto é que ninguém aguenta por muito tempo ser quem se é... ininterruptamente. Que seja liso, plano, que não me corte a pele, meu amor, já que eu já tenho na alma umas porradas que não há descanso que resolva. Clareza, meu querido, é tudo que peço. Aquela clareza que nos faz encarar a vida e escolher. Finalmente, definitivamente... escolher.
eu que sempre fui a bambambam a dona Força com éfe maiúsculo, eu que me achava capaz de brigar com monstros meus e dos outros, com fantasmas meus e dos outros, a dona Vitória com vê maiúsculo, eu que acreditava num deus que não jamais resolveria nada em mim, apenas existiria com suas entidades e energias, eu que era daquelas que atravessam pátios e pátios sozinha mas com o mundo ao redor mas sem traumas, sem traumas meus amigos, eu que era Feliz com éfe minúsculo porque era uma felicidade frágil mas eu que acreditava que era tudo muito bem tudo muito bom sem traumas, o plexo solar em plena iluminação eu que via a solidão como a beleza do universo, a beleza dos séculos em ser minha e de todos que me amassem eu que vinha de prepotência e sucesso em tudo tudo, acabo de depositar francamente todas todas todas as minhas últimas esperanças com e minúsculo no Divino Espírito Santo, justo ele que antes era uma pobre pomba e hoje é o Divino Espírito Santo lê a fita vermelha que eu pendurei no teu mastro por favor me escuta os pedidos e conversa aí com os Santos e com o Deus com dê maiúsculo uma reunião de um minuto não vai comprometer a Eternidade de vocês, me dêem uma força por favor que tá me faltando lugar de onde tirar, nunca mais te chamo de pomba, ou talvez Pomba com pê maiúsculo, lê a minha fitinha Divino, lê pelo amor de Deus?

sábado, 2 de julho de 2011

Fé cega

O amor daquela mulher era mais que amor, era uma fé. Era mais que uma fé, era como se por amor aquela mulher, de tola, fosse capaz de atravessar desertos a nado, de joelhos subindo as escadas para o Olimpo, mergulhando através das eras, crendo crendo crendo... E qual não deve ser sua dor, sua frustração estuporada ao descobrir que não: que o seu Deus é uma farsa?

(...)

ando com uma latência, uma voz que fica me dizendo 'chora. chora. chora!' mas eu não choro. quase não choro. ando com essa coisa me apertando por todos os lados, como quem estrangula e retira o ar e sulfuriza o ambiente e aperta bem na boca do estômago bem ali no plexo solar sabe? ando segurando as pontas malemale, me dizendo 'você é uma força. você é.' mas não sou não sou não sou eu sou um bicho fraco que se construiu como templo, mas não sou não sou. ando com essa coisa, essa coisa amorfa e maldita me agarrando bem no meio da garganta dizendo que a esperança é uma farsa e me dizendo que eu já sabia que seria assim eu já sabia mas não quis aceitar. ando com essa potência, uma coisa que fica me dizendo 'grita. grita. grita!' mas eu não grito.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O corpo que dança

Um corpo: músculo, ossos, articulações.
Movimento. Alma.
O corpo é um ritmo todo. Uma música toda: veias. Co-ra-ção-ção-ção...
O ranger, o esfregar, o baque surdo.
Um corpo que dança levita, se entrega.
Não somos pouca coisa. Temos uma coluna de ar voando, voando.
Posso esticar, comprimir, torcer.
Um corpo que dança é elástico.
É peso. É pele.
Dois corpos: são.
Os nossos corpos quase-tocam.
Os corpos que dançam são uma coisa só.
Dois membros de um grande corpo.
Estica-me. Repuxo-te. Envolvo-te. Laceia-me.
Fluxo. Abro o corpo pra você passar.
Você me segura. Somos um.
Dois corpos que dançam são.
São.

domingo, 26 de junho de 2011

Insânia

Existe uma foto sua pendurada na minha parede. Sorríamos muito. Existe cumplicidade? Será que é verdade que podemos dividir nossa alma com alguém? Será que isso existe ou é só manipulação? Será que existem relacionamentos verdadeiros? Será que é possível sentir algo muito grande por alguém e ver sentido nesse sentimento por muito tempo, sem jamais se indagar sobre sua autenticidade? Será que isso que nós construímos é amor?? Tenho duvidado muito. Tenho duvidado com todas as minhas forças. Será que essa coisa gigante que sinto por você é amor? Em pleno século XXI, estou a tempo de me perguntar: e se isso for algum tipo de loucura, delírio etc? E se eu tiver criado tudo dentro da minha cabeça? E se eu estiver louca?! Mas nós sorríamos juntos na foto pendurada na parede. Me lembro bem desse dia, fui só para te encontrar. Será que em algum momento você viria só para me encontrar? Isso é piração minha. Eu sei que eu sou a doida da história. Por isso não te encontrar mais. Nunca mais. Porque esse amor me mata. Na minha cabeça. Sorríamos muito e era feliz estarmos juntos. Era muito feliz. Hoje você é indiferença. Indiferença, me repito. Indiferença! Minha vida vai ter que tomar outros rumos. Sem você.  Sim, devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu. Preciso ver com clareza. Será que o amor é um bicho arisco que nos ataca nas nossas fragilidades e aos poucos nos vai mutilando, decepando, amputando? Será que o amor tem bicado meu fígado todos os dias, esperando ele se recompor?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Um Manifesto: Pessoalidade, sem poesia.

Você disse que eu mudei por isso? É essa a minha tão enorme mudança?? Eu vou te falar por que é que eu mudei: agora lavo minhas roupas; me sinto sozinha e choro no escuro do quarto; ninguém me espera à noite para perguntar dos meus dias; eu vejo em você a vida que eu tinha e ela não faz mais sentido, entende? Minha vida não faz mais sentido! Todos os anos que eu fui. Fui? Fui o quê?! Morreu. Agora se não há comida passo fome e meu dinheiro não é infinito; fui furtada dentro de casa e minha mãe nem ficou sabendo, não havia quem me prometesse que vai ficar tudo bem; sinto vontades de chorar e ninguém nem sabe; perdi um amor verdadeiro porque, com todas as palavras, sou fraca. Perdi uma grande amizade por opção, mas me arrependo todos os dias, me machuco toda vez e não há como voltar atrás. Moro a 120km de onde eu moro. Não sei a que lugar pertenço. Ir aos lugares de passado me dá a maior tristeza que já experimentei. Ainda não sei o que significa voltar. Eu morro de medo, mas não posso simplesmente me trancafiar. Estou sozinha e aprendendo a ser. - e vejo tudo incrível! - Sem me martirizar, acho que uma bobagem dessas não significa nada.

Imperativo

Sou eu quem tem que ir embora. Não há imperativos. Eu saio. Eu saio. Aprontarei essas malas, não quero te encontrar. Dói demais pra mim. Me digo 'otária, estúpida' e o mundo ri. O mundo ri, dizendo 'criança. fraca' e fraca sou. Preciso ir embora. Dói demais. Eu vou lá entender os motivos. Acho que isso é amor, mas que droga de amor é esse?? Não quero te ver nunca mais. Me machuca. Sou eu quem tem que partir. Eu vou. Eu vou. Tenho sentido tanto medo de perder. Vou perder tudo. Mas você me dói. Terei de ir. Sem imperativos, você pode ficar. Eu parto. Minha alma se parte em mil. O teu pedaço ficou inteiro. Não há outro jeito. Terei de abandonar. Tudo. Terei de dizer adeus. E esperar essa tristeza que é te ver ir embora. Não vejo outra saída. Não há

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Mutante

- ... e aí ele me disse: "Nossa, como você tá mudada!"
- e isso não é bom??
- não! claro que não... os que me amavam amavam a pessoa que eu fui, e não quem eu sou. Me entende? eles não amam quem eu sou.
- e daí??
- daí que eu tenho sentido tanto medo de perder, tanto, tanto...
- mas garota, você está crescendo
- e crescer é perder? as coisas que eu construí? as pessoas que eu abracei forte, tão forte que era pra ser um coração só?
- crescer talvez seja perder.
- é tão difícil... eu tinha algo a que me segurar. e aos poucos não há mais. tenho me sentido tão sozinha. às vezes no banho eu deixo a água escorrendo, sabe a água escorrendo quente por todos os poros? eu queria poder esfregar, esfregar tudo, passar sabonete em tudo o que eu vivi, e o que eu vivi não foi pouca coisa,  eu queria poder usar uma bucha com força na minha alma e merecer novamente um amor que já tive. tenho me sentido tão perdida, sabe? perdida no mundo.
- mas você merece ser amada! talvez esteja se tornando uma mulher e isso é merecer amor.
- já viveu isso? se olhar no espelho e, com alguma repulsa, afirmar 'mas isso aí não sou eu!' e então terrivelmente se perguntar 'mas o que é que eu sou?' e não há resposta... já viveu??
- talvez todos vivam um dia.
- esse bicho triste, sem cor, eu não sou esse bicho medroso que faz escarcéu da própria dor. eu sou uma mulher que sofre em silêncio, e sempre fui. sempre, sempre. eu não quero ser esse bicho rancoroso que tenho sido. eu não tenho nada pra me segurar de pé.
- mulheres aprendem a se apoiar nas próprias patas como um bicho que quase voa!
- eu não quase vôo... só quase caio. quando o sol queima a pele de modo desigual, sabe como é? é assim que me sinto, só que na alma.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Me ajuda a ver com clareza. Tenho pedido insistentemente. Me falta sanidade às vezes, me falta abrir os olhos para aceitar o que nos ocorre. Preciso de ajuda para olhar. Não há luz dentro desse espaço; não há caminhos outros e nem 'o' caminho. Preciso da tua mão me segurando de pé, estou com medo. Me ajuda a enxergar. Pelo amor de Deus, lhe imploro. Me ajuda. Me salva dessas faltas. Desespero? Preciso encontrar alguma resposta. A batalha é árdua. Me ajuda. Me empresta o teu ombro pra que eu possa me dissolver. Eu preciso tanto, tanto... Tem me faltado luz luz luz. Tem me faltado muito. Tenho sentido muito medo. Tenho sentido tantas crises.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fiquei

Fiquei pensando e repensando a ausência tua. Fiquei pensando e repensando como certas coisas não suprem a falta amputada de outras. Fiquei pensando coisas das quais tenho medo de falar. Enquanto caminhava fiquei pensando que gostaria de ser livre, livre. O bicho mais livre do universo... Mas então concluí que estar muito livre é estar muito só. E de solidão já me bastam essas tardes em que caminho sob o sol divagando, divagando...

Insônia I

(Um homem, uma mulher e uma vela)

MULHER - O que a gente faz?
HOMEM - Quando?
MULHER - Quando essa vela apagar? O que a gente faz?
HOMEM - A gente se entrega: primeiro um ao outro; depois, juntos, à escuridão. E então poderemos fechar os olhos e dormir.
MULHER - Mas eu tenho medo do escuro...
HOMEM - Mesmo se eu te segurar tão perto que você vai estar quase dentro de mim? Mesmo enquanto eu ficar te contando as minhas historinhas bobas bem baixinho, até você pegar no sono?
MULHER - O problema é que eu nunca pego no sono.

(Apagam a vela)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

As Cartas

(deve ser lido em tom de sussurro)

As cartas que eu ainda não escrevi estão todas descritas no meu corpo. As minhas cartas se escrevem conforme  passeio pelas ruas, conforme eu silenciosamente percorro comprimentos, cumpro ordens, compro papel e tinta; as minhas cartas estão escritas na minha pele: cada curva é uma vírgula que ainda não virou pausa. Cada movimento é uma palavra: dissuado; persuado; me esquivo, rodeio, estico, rodopio. Minhas cartas são escritas conforme te observo os olhos, conforme sinto medo, confiança, saudade... As cartas de adeus se escrevem quando teus olhos não mais, e então são todas feitas de água, a água do corpo do meu corpo sem o corpo teu.

domingo, 5 de junho de 2011

A rosa no copo verde:
não se dissolveu durante o fim de semana, mas ainda não abriu as pétalas...
(queria tanto ver a segunda cor escondida lá dentro!).
Acho que esqueci de deixar a janela aberta... Quem sobrevive sem ar?
Ando como um gato que perdeu o rabo: sem coragem.





Sem equilíbrio.

terça-feira, 31 de maio de 2011

A revolta de Ofélia

Me abandona. Pelo amor de Deus saia da minha cabeça! Minha mente é altamente verborrágica: e a todo momento há você. Você compreende minha dor? Que pena que trata-se de Hamlet! Mas eu não sou Hamlet!
Por que é que eu não me revolto? Por que é que eu não resolvo te abandonar ao léo, esquecer desses meus gestos melífluos, indelicadamente amorosos? Por que é que eu opto, dia após dia, por me afogar dentro dessa loucura, noites sem dormir chorando, manhãs em outros lugares, tardes tristes... Porque a fundo eu sou você, me entende? Ofélia é Hamlet. E você sou eu, Hamlet é Ofélia. Entende minha insanidade? Se eu pudesse te matava com adagas, afogado debaixo das minhas cortinas. E tudo isso dentro de mim. Porque estou me afogando. E quando você ficar sabendo já vai ser tarde demais... Me ouve, Hamlet? Das profundezas dos seus sonhos e das suas dores, do seu eumismo, será que você é capaz de me ouvir gritando debaixo d'água?! Será que é capaz de sair de si pra me escutar morrendo?

Minhas adagas a postos: ou eu ou você.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Por saudade num sussurro:

farei silêncio. muito silêncio. a partir de hoje serei imortal. quero dançar em silêncio. quero entregar minh'alma nas mãos de quem cuide com zelo. eu preciso de cuidado, me entende? eu também sou fraca. perdoa-me por desistir tão cedo. não que o fim tenha chegado ao seu ápice. existe muita coisa nas tuas mãos: agora não posso mais retornar sozinha: venha me buscar. me entendeu? venha me buscar, eu repito. "Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado." eu não sei te odiar. nunca soube te amar também. Mas venha me buscar. já pensei, já pensei com carinho, e concluí:

Chama sem medo

Fósforos;
Faísca: rascar dos corpos.
Fogo, calor...

Me embrulha dentro dos seus sonhos e promete que não me esquece, que a morte não dói, que nem todos estão loucos. Esquenta meus pés, já que as meias abandonaram, o sangue me abandonou, a esperança já não há muito. Saiba que isso que eu sou é tão pouco, tão pouco, mas sou e isso é por você. Acende a lareira na sala, acende a fogueira do lado de dentro do peito, chama sem medo... me chama sem medo de ouvir que não.

domingo, 22 de maio de 2011

... eu já chorei esperneei gritei acendi as luzes escrevi textos e textos divagando sobre amorte, amorte de tudo, veja bem amorte do amor quem sabe, já arranquei as pétalas bemequer malmequer deu malmequer e de cada pétala jorrava sangue sangue e um vento vento que cobre a espinha de um medo um medo de fazer as escolhas erradas de optar por ser mais triste ainda já chorei esperneei gritei olhei pros teus movimentos só pra ter certeza olhei nos teus olhos pra me provocar já tentei de tudo apaguei as luzes e chorei na ausência que se fez e que se faz mas a cada instante percebo que sou viciada que sou eu que preciso de você mas não posso porque não é assim que deve ser o amor não pode ser só isso eu me respondo com os olhos em brasa eu me digo isso não é amor isso não é amor isso não é amor sua otária eu me digo, me chamo de otária e choro mais forte ainda pra ver se ainda me perdoo eu já chorei esperneei gritei...

sábado, 14 de maio de 2011

Quase Nada

Por hora, deixemos o cachorro latir. Deixemo-lo latir madrugada adentro. Finjamos que nada aconteceu, além de uma madrugada... e um cachorro. Por favor, ignoremos todo o resto, os fantasmas, os desejos, o passado, essa voz incessante que suplica, suplica por companhia, suplica por perdão, mas não ouve resposta alguma. Ignoremos o desespero de alguns que não encontram saída, que não sabem a quê estão no mundo. Ignoremos! Viremos o rosto mais de lado, como quem dorme desavisado ou, desavisadamente, lê um livro. Resmunguemos alguma coisa, nos cubramos um pouco mais com nossos cobertores e durmamos, alegando que a única dificuldade encontrada foi a de esquecer o cachorro latindo.

terça-feira, 10 de maio de 2011


de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

(Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 8 de maio de 2011

Hoje acordei lembrando de te conhecer: você tinha os olhos infantis que sentem uma curiosidade, prontos para a afeição. Talvez jamais me esqueça daqueles teus olhos de quando te conhecia... Eram os mais belos porque estavam disponíveis. Eram lindos porque não vinham fantasiados de outra coisa. Às vezes crescer é uma desgraça: maturidade (?) vem com ceticismo, com essa ideia de que podemos estar acima, acima, acima do mundo! Você treinou teus olhares na frente do espelho, e tudo é dissimulado, tudo é triste, tudo é perfeito. Que pena!...

... e que saudade de você.

sábado, 7 de maio de 2011

Toda a força é meramente ilustrativa

é que eu não consigo, simplesmente não consigo me acalmar. Já tentei toda forma apaziguadora, lavar louça roer as unhas pintar as unhas sair pra correr chocolate miojo yoga mantras egípcios escrever textos e textos pedindo ajuda, pedindo desculpa, pedindo carinho... Você vai me ver dando tanta risada da vida, de todos que me pedem pedem pedem e eu dou dou dou, mas toda essa força é uma casquinha mista de sabor falso, porque por dentro eu quero tanto voltar atrás, desfazer os passos que já fiz... Eu quero tanto desistir de tudo, quero descansar de tudo, de mim, de você, quero chorar, quero pedir arrego. Mas não posso.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Conclusão:

Hoje olhei para a vida e concluí: ainda vou passar por muitas chuvas.

Do eterno esquecimento

A saudade vai passar e nada aconteceu, então.
Resolvi me desfazer de tudo o que não me faz bem e não pense que é uma metáfora, porque não é. Minto, é claro que é uma metáfora: nem tudo é livrável ou quem sabe pessoas não possam ser jogadas fora e nem é o meu propósito. Abrirei uma lata de lixo e lá dentro cartas meias livros bodes expiatórios 'e se's 'por enquanto's esperas esperas esperanças vagas tudo em vão fruta estragada música triste tudo que entulha entulha entulha e a gente pensa 'mas o que é que eu vou fazer com isso?' e se for uma pessoa não te atirarei no moedor de papel porque pessoas não são papel pessoas têm alma pessoas têm cor e luz. Mas não vou te segurar do meu lado como quem força o amor, vou te soltar de mim porque nenhum vício faz bem e então vou querer saber o que é que tem de tão surpreendente no futuro e quem sabe não seja nada e eu não vou me entristecer, vou te transformar em samba e luz... E olhar pra frente, sambando, sambando...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Querido,

ontem chorei. Chorei de soluçar, dentro do escuro de um ônibus que metaforicamente me trazia até você - jamais poderei te atingir. Fones de ouvido e eu estava sozinha. Completamente sozinha, não fosse pela tua presença - jamais consigo me livrar de ti. Por acidente, ouvi as nossas músicas e me transportei para quando estive dentro de você: não coube mais em mim.
Querido,

você já teve a impressão de estar assistindo o tempo? Por vezes me pego distorcendo o vento, como se pudesse retornar... Não entendo muita coisa do futuro: o que há de ser? Sinto medo do passado. E se eu ficar presa no vago das lembranças? Querido, muitas vezes me sinto a raposa fugidia que não se permite cativar pelo novo: não quero experimentar do mundo, me sinto apavorada com a ideia de estar me abandonando ao vazio. Mas o campo-santo dos pretéritos também é vazio: o que não é mais simplesmente não o é. Apenas eu posso ser, mas não quero. Eu não quero ser a encarnação de um passado do qual não mais pertenço.
Para toda vez que o amor vier
... nos permitamos!

domingo, 24 de abril de 2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

É lógico que você talvez sinta minha falta: nunca lhe deixei faltar nada. Nos dias frios eu abria mão do agasalho só para não te ver tiritando ao relento. Se houvesse chuva, eu queria ser tanto teu guarda-chuva quanto a companhia para rodopiar sob o aguaceiro... se você estava triste eu passava por cima de mim para te secar as lágrimas. Todo mundo sente a falta dos seus servos fiéis. Você sente a minha falta, como um senhor sente a falta de um servo fiel, mas você não sente saudade, como um amigo sente saudade de seu grande companheiro.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Querido,

você me escreveu bilhetes carinhosos e delineou coraçõezinhos coloridos nas pautas do meu caderno. Você me descreveu uma amizade que beirava a fraternidade, como se eu fosse para ti tão preciosa que você se disporia a abrir mão de si para cuidar de mim. Você desenhou palavras belas, com cores e sons específicos, sempre brilhantes, como quem promete luz quando meus dias fossem tristes. Palavras, palavras, palavras... desenhos, desenhos, desenhos! Você me fez crer que poderia ser meu irmão, meu porto seguro, um cais para's minhas lágrimas... mas era tudo aquarela: na chegada da primeira chuva, a primeira gota d'água já pôde derreter cada palavra enganosa, cada coraçãozinho dissimulado, cada cor falsa. E você também fugiu, acho que com preguiça de assumir a responsabilidade que havia assumido - com tinta solúvel demais.


(Mas para mim não é assim que são irmãos.)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Querido,

não sou perniciosa nem fugidia. Não mereço esses belos adjetivos designados às mulheres de olhar felino. Tampouco disponho dos olhares felinos. Parece repetitivo, mas eu realmente estou mais pra corsa do que pra gata. Sou simples, de uma simplicidade que você talvez não compreenda. Sou simples, mas com algumas sutilezas: sou silente quando séria e berrante no resto do tempo. Sou expansão para muitos e contração para pouquíssimos. Vou um pouco além do que aparento, e sinto muito mais medo do que você acha. Vou um pouco na contra-mão: enquanto as felinas se enovelam em mistério e vão se mostrando devagar, eu me exponho de prima e, aos poucos, desapareço. E, afinal, também é uma forma de ser.

Da sua saudosa.

terça-feira, 29 de março de 2011

La Valse des Monstres

Quando, deitada sozinha no silêncio da noite, sinto medo do escuro, seguro muito forte suas mãos nas minhas e nos ponho a rodar. Uma ciranda imaginária, a dois: primeiro preciso arrancar uma folha verde d'algum canto da minha memória - um palco gramado onde rodopiemos. Você então me olha, confidente, e pela primeira vez não sente medo de se entregar - não dispõe de meneios ou circunlóquios. As folhas farfalhando e o vento bagunçando seus cabelos são motivos para que o teu mais amplo sorriso se faça! E eu sorrio junto, porque sei que não há mais nada no mundo de que eu precise além disso. Também não sinto medo de te olhar no fundo dos olhos, e de uma vez por todas me permito ser sugada para dentro da tua alma quase sempre tão esquiva... A cor dos seus olhos se mistura com o borrão desenhado no cenário ao nosso redor, nos tornando todos numa coisa única. E neste momento em que te assisto feliz, disperso de teus preconceitos, é como se ouvisse realmente a tua voz aqui, comigo, me contando uma história bonita para me esperar pegar no sono...


E, em paz, eu durmo.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Querido(a),
quando te escrevo cartas dizendo nada com essas letras tortas, desprendidas da estética ou do bom gosto, é porque preciso de um sinal teu: uma resposta, ainda que em branco, um pedaço do teu mau humor, uma respiração profunda, uma única palavra jogada entre tanto silêncio... é porque não tenho como te olhar nos olhos e captar seus trejeitos, é porque tua ausência faz um vácuo no meu peito...! Então jogo a linha de pesca e tento fisgar um segundo da tua alma, apenas para fingir que te tenho mais um pouco ao meu lado...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Então será que são esses os tais fantasmas dos quais as pessoas tanto falam? No escuro, no quase-sono (o momento fugaz em que assistimos a consciência - ou a sanidade? - nos abandonar) do travesseiro com cheiro de ausência, tantos fantasmas desfiando tantos relevos da alma...
Um passado irrecuperável: uma voz que canta, o piano tocando, o silêncio seguro de uma grande amizade. Um presente imensurável, absurdo, revolucionário. Um presente grandioso, espetacular! - mas incompleto... Quem sabe... infeliz... E o futuro... Ah, o futuro! Tantas promessas, a melhora, o costume, o assentamento. O futuro amplo, tão amplo que, a perder de vista, tudo o que se vê é insegurança. Os fantasmas do Chronos bailando sobre minha cabeça, que gira: piano abraço pessoas mais bom balé corpo antes porto tanto dual gente eu lugar experiência medo medo medo medo (...)


(acendo a luzinha na tomada)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Lembrete

Estou prestes a subir no ônibus sujo sem banheiro nem ar condicionado, com as malas repletas de passado, toda sorte de passado, desde rifa de felicidade até embalo de bala de menta para antes do primeiro beijo. Em cada mão um pedaço de papel com um endereço diferente: quem eu fui e a identidade que ainda estou para assumir. Cada pé dum lado do tempo-espaço. Regida por constelações que o dia não apaga, e o motorista desse ônibus que não dorme há três dias mas vai me levar para 'lá'. E aqui, suspensa entre o passado e o inesperado, sou terra de ninguém. A trincheira imóvel onde acumulam-se os corpos de ambos os times. Aqui, suspensa entre a coragem e a marcha-ré, te olho com teus olhos doces que me dizem adeus implorando para que eu volte, desenho com os lábios, sem fazer som algum: torce por mim, agora que eu já não torço mais, reza por mim à noite para o teu Deus, agora que já não acredito em nenhum, e guarda uma foto minha, uma recordação, porque talvez quando você me vir novamente, descendo do ônibus, talvez você não me reconheça mais...
De pedra. Sim, de pedra, não me pergunte mais nada. Não quero me perder noutro monólogo triste sobre perder a esperança, porque talvez seja pecado matar a esperança de outrem. E eu não veria problema algum em me demorar algum tempo explicando por que é que a esperança sempre carrega ônus maior que bônus, e que lembramos melhor das quedas do que dos vôos... Mas por agora não me diga mais nada: e eu me aterei à sua pergunta. Esta pia é de pedra.

Fantasias escapistas

Assim, quando você me olhar e eu te parecer dúbia, extremada - mas inerte -, saiba que há muito me perdi entre corpo e realidade. Existe um equilíbrio tão ínfimo (do qual não sei fazer parte) que bota o universo numa redoma, aguardando a queda da última pétala. Enquanto tudo é posto em prática e eu fiquei para trás, reinvento tudo isso. Escapo pela tangente, a um fio de me agarrarem para que eu volte à superfície. Mergulho... e escuto a Grande Paz do oceano, infinito, denso. Há música tocando aqui dentro. Quando você me olhar mas eu não estiver aqui, não me chame. Eu estarei dançando balé no fundo do universo.
... você me deixou para mais tarde e como eu soube que não haveria mais tarde senti aquele já volto como um soco na boca do estômago, o nocaute perfeito para qualquer desejo meu de me manter aqui. De repente haveria fogo e aquela orchestra do juízo final retumbando sobre os ouvidos aterrorizados, e ainda se alguma porta se abrisse... mas não. A orchestra, o fogo e apenas uma pomba perdida, em paz apesar do caos. E o fogo que consumisse a pomba como se fosse apenas som, aquele pequeno punhado de vida em decomposição, sem nada que a segure no mundo. E eu, como a pomba, atrás de um alento qualquer, consumida na paz, dicotômica com o caos interior.

Agônica

Já que no fundo, no fundo tanto faz estar ou não estar, partir ou continuar sob os carinhos afetuosos do edredom... Agora olho para a vida, as escrófulas da realidade - sem o preciosismo antigo dos que folheiam o passado a ouro, por mais que por dentro tudo seja orgânico e esteja apodrecido -, olho para tudo e sei, com certeza sei, tanto faz. E quando hoje não sou peça-chave para nenhum quebra-cabeça, eu sei. Mas não quero. Por isso não te procurar para falar de todos os detalhes da minha parnásica existência. Por isso nunca te contar dos cortes profundos que escondo debaixo da pele. Porque, apesar de não querer, eu sei que tanto faz.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Vai que a felicidade anda gratuita por aí... Quem sou eu pra negá-la? Sou nova demais para desviar dos teus raios como quem olha para o chão, e não nos olhos! Agora que quero tanto, tanto me sentir parte de algo maior, agora que eu quero crescer do meu jeito, te encaro e digo: venha!

Venha em sua infinitude e em tudo o que pode me fazer bem. Estou pronta para ser feita feliz como nunca...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Querido,

me oferece um colo enquanto ainda é tempo: para que eu possa repousar os olhos num ponto fixo, permitindo que as lágrimas escorram... Me permita esquecer que pequei, que a culpa disso tudo é minha, me deixa achar que está tudo bem! Que voltamos aos nossos dias... Me dá uma chance de me redimir, apenas oferecendo o colo para que eu chore a tua perda... Um suspiro de saudade agora. Eu sentia tamanha paz ao teu lado. Quem explica o que se deu em mim? Outro suspiro, este de arrependimento.
Ainda estou me conhecendo, sabe? (Te incomodo me deitando aqui?) Então, ainda não sei direito como funciono, não sei o que aconteceu. Sou ingrata e menos constante do que imaginei que seria quando chegasse a hora. Estou pouco acostumada a ser amada. De repente - insiro mais um suspiro triste - me vi tão confusa... Fiz errado, me antecipei e fui te cortando, cortando tanto que duvido merecer o perdão.
Me deixa, por agora, apenas me deixa deitar no teu colo para chorar as lágrimas da tua perda?

domingo, 30 de janeiro de 2011

- Roeu as unhas, foi?

- Minha vida está em tamanha instabilidade que pouca coisa se mantém inteira em mim...
Preparar-se para ser o melhor possível.

O teu silêncio que envolve, dilata as pupilas e me faz querer te fazer o bem... Quando sinto medo recorro aos teus jeitos, aos teus cheiros, e está tudo bem. Agora tantas chuvas dissolvem minh'alma e eu não sei como diminuir essa angústia. Me abraça enquanto é tempo...

Volta enquanto é tempo para nós dois.
Se eu soubesse qualquer resposta, responderia até aos que não me perguntam nada: aos transeuntes negligentes, às moscas quase mortas no batente, à aranha que agora mora no canto da entrada do mundo. A você, se chegasse perto. Difícil é quando me perguntam - e me perguntam tantas vezes! - e eu não tenho como explicar. Difícil é quando batem à porta apenas para ouvir o que tenho para dizer, o que é que decidi, e nada mudou aqui dentro. Mais difícil é quando falam, falam, desfiam opiniões por tantas horas que até meu relógio se cansa e dorme um pouco. São tantas opiniões que a cada minuto me torno uma pessoa mais confusa. Não sei... Eu não sei!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Trechos

(...) O arrependimento é o menos lícito dos sentimentos. É quando assumimos o pecado e ainda desejamos que ele não tenha existido. Até o fim com os próprios erros!, é o que eu diria. Mas quero a redenção. Por isso não posso falar. (...)

(...) sabe quando uma pessoa supre tudo? Hoje me sobra companhia, mas nada supre minhas ausências. (...)

(...) queria tanto ver verdade nos seus olhos claros como um dia que não quer acabar... (...

(...) Quase falo. Mas ainda não é hora, vou permanecer em silêncio. Sou silenciosa, apesar de me trair com a prolixidade. A verdade é que se pudesse me superar, me manteria calada todo o tempo. (...)

(...) Quando me entrego, sinto tamanha frustração que preferia ter sido machucada no corpo, e não na alma. Cortem minha pele, mas não sejam indiferentes às minhas pequenas epifanias ou desgostos! Hoje eu gostaria de explicar meus atos falhos, mas existem palavras que eu talvez jamais poderei dizer. (...)

(...) Talvez eu não me sinta salva porque não mereço ser salva. (...)

(...) Quando o sol queima a pele de modo desigual, sabe como é? É assim que me sinto, só que na alma.
"te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em todos de novo, que leve para longe da minha boca esse gosto podre de fracasso"


(Caio Fernando Abreu)


No desfilar do vento, o tempo acabou. Me desculpe, mocinha, não trabalhamos mais por hoje. Fiquei na fila da Roda-gigante. Por favor, não volte mais, não é bem vinda aqui. Até as portas que eu fechei e não sei como abrir: falhas, falhas, falhas. Ouve o pulsar da noite? A madrugada prossegue indiferente à tua boca seca. À tua garganta estúpida. Aos teus pensamentos supérfluos, que você considera tão sábios. Estes teus lábios que dissecam palavras profanas que você nem sabe o que significam. Não deseja sentir mais nada? Erga-se como algo maior do que um ato falho. Quase nascida por acaso.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Tenho de falar de.

A vida arde um pouco. Para mim, a vida é quase cítrica. Arde sem arder, no fundo da garganta. O problema é quando há a vida em cima do corte. O limão na ostra. Os meus cortes se contraindo ante a vida. Quase cicatriz: dor. Assim, com minhas feridas abertas, exponho-me à vida. E então arde tanto que eu me contorço. Não é balé. É vida.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Querido,

não sê tão veemente. Sou boa, apesar de tudo... Erro tanto, meu amor, que muitas vezes também me mutilo atrás de perdão. Sou uma daquelas pessoas que nem sempre pensam muito no que fazem. Escrevo a lápis desejando um dia poder apagar tudo. Pena que as lembranças não são como palavras. Lembranças são cicatrizes na parede da alma: duplamente irreparáveis. Não vou me explicar. Sou de difícil interpretação. Ouço músicas de amor mas por vezes o refuto, desejando apenas lascívia. E então peco. Quem me redime? A loba arranhada. A gata morta. A pomba livre. Minha própria essência. Por isso peço que não me condene. Ainda não.
A tua ausência grita. Você não está aqui: palavras profusas em silêncio. Como não pudesse escapar dos medos que me arrebatam, olho para os lados e tudo tem o seu cheiro. Dúvida: será alento ou repelente? Seu cheiro me acalma - mas isso é segredo. O seu cheiro na minha pele é ausência. Grita nos meus poros. O seu riso no meu ouvido é ausência. Grita num labirinto sem saída. Teu hálito na minha boca é ausência. Grita através das minhas cordas vocais. O teu toque na minha mão é ausência. Grita tão alto que me arranho toda para te calar. Os meus arranhões escrevem o seu nome no meu corpo... Seu nome escrito no meu corpo é ausência.
Quero escrever um texto comedido, que preze pelos bons costumes da literatura. Quero escrever um texto que peça licença para entrar, que não se demore e, ao acabar, agradeça a compreensão do leitor. Gostaria de escrever com métrica metódica, a fim de talvez respeitar a etiqueta. Mas as palavras vêm em profusão, aparecendo sem sequer olhar para os lados antes de atravessar a rua. As minhas palavras rebeladas estão fazendo piquete na porta. São violentas, ásperas, inóspitas. Você não gostaria de ouvi-las: não fazem sentido. Não têm bom gosto nem bom-senso. Hoje as minhas palavras são caos.
Vou trazer teu rosto estampado no peito como um relicário.
Baco. Me escuta, homem
de linhas duras, mas tênues.
Pouca coisa me segura ao que sou.
Meu amor que é teu.
Responde por mim quando me perguntas
se quero partir.
Nunca.

A noite da grande paz, da grande paz dos seus olhos.

Deitados os dois, esperando o mundo parar de rodar. O que se sente é a Grande Paz. No emaranhado dos nossos cabelos, dos nossos cheiros,dos nossos dedos, delineia-se um sentimento novo. Entrega. Você não me teme. Eu só quero te descobrir mais e mais. Eu ouço tua respiração. Nosso coração no mesmo compasso. O que se ouve é a Grande Paz. Música. Você tão perto que é quase eu. Aqueles dois corpos que eram um, pois dividiam o mesmo espaço, o mesmo pensamento e, quem sabe, a mesma alma. Tudo o que há no mundo é a Grande Paz.
Sentes medo, bicho? Está escondido como quem pecou e não há a quem recorrer, ou meio de obter redenção? Então é só isso, bicho? Apenas medo... Vê bem, bicho, tudo é mais do que isso. O teu medo não cabe a mais ninguém. Quando você sentir isso, lembre que existem bilhões de seres como ti sentindo a mesma coisa. Portanto nenhum deles vai se importar muito.

Não chore atrás da porta agora.

Não se esconda debaixo da cama. A tua percepção de mundo é tão incompleta, as verdades tão fugidias, as utopias tão fugazes. Ser, você não tem nome. É criação de algo que não pode explicar. Coisa animada, não está vivo. Bicho estúpido, instintivo, privado de senso de ridículo, de vergonha, privado de tudo o que te torna

humano?


(Fraqueja, bicho.)
(...) Um silêncio tão denso que se torna palpável, um quase-medo das forças que regem a escuridão, uma respiração entrecortada (jamais saberemos se essa respiração nos pertence ou não...), todos os pensamentos postos em banho-maria desfilando sobre os nossos olhos que não sabem se estão fechados ou não - tudo se mistura no escuro... (...)