segunda-feira, 4 de julho de 2011

, e é por isso que me sento aqui na calçada e converso com você. Quer dizer, falo com você, porque sou uma daquelas mulheres que quando começam a divagar, o outro não tem vez. Mas eu já sei o que você tá pensando: em contar aos seus amigos que uma desesperançosa te interceptou no ponto de ônibus, bem na hora em que você ia abrir uma página de cruzadinha. Odeio pontos de ônibus porque sempre fico me perguntando se todas as pessoas estão indo para o mesmo lugar, se eu estou indo para o mesmo lugar que todas as pessoas... odeio também esses ônibus que dão tantas voltas em todas as ruas cinzas que até me esqueço do meu destino. Um cigarro cairia bem agora, no meio deste discurso. Mas eu não fumo. Se tivesse vontade, fumaria: mas não tenho. Nunca tive. E agradeço sempre por não sentir vontade de algo tão masoquista. Também não bebo muito. Quando tenho vontade, bebo. Mas não tenho vontade muitas vezes. O problema é que quando vem, vem um desejo louco de beber todas: conhaque rum vodca pinga vinho o que me derem na mão. Só sinto vontade de beber quando não suporto mais a realidade. E eu vou te dizer, menino, às vezes a realidade é a-ter-ra-do-ra.  Medonha, sim? Sabe quando você vê um filme de terror tão terrível que passa meses - meses! - com medo de olhar através das janelas? A realidade é bem isso que está atrás da janela. E às vezes eu tenho um medo fo-di-do de olhar através. É bem isso mesmo, menino, você vai sentir na própria pele, vai ver tudo com esses teus olhos castanhos. Ai ai ai... a vida costuma brincar de pega-pega com a gente...
O meu ônibus chegou! Você vem?!

Então nós não vamos pro mesmo lugar!

Um comentário:

Jaime disse...

Ah, me deixa compartilhar contigo do absurdo bom que é te ler e te ler e te ler. Porque hoje é dos dias que eu carrego uma coisa aqui, e não posso deixar de dizer que não, não, não pare de nos (me) escrever nunca. Essa sequência foi coisa de saltar o meu coração. Esse último sobretudo, com essas passagens sobre realidade, sobre o teu (meu) não suportar da realidade, o nosso recurso à fulga. É que eu me achei muito.

Um beijo. Eu queria poder te dar um abraço hoje. E só. As palavras têm disso.