segunda-feira, 31 de outubro de 2011

És de mim um membro abortado

És de mim um membro abortado:
e eu cavoco suas feridas como um bicho faminto
que no corpo outro procura sua subsistência,
Ao mesmo tempo em que bombeio o sangue teu
como se minhas mãos fossem um segundo coração
que te pudessem manter vivo.

És de mim um membro abortado
e no silêncio que se faz a cada dia
te procuro vivo dentro do meu pulso em chamas
e do meu corpo móvel estancado no mesmo lugar
como sempre, como eu escolhi
Como nos foi predestinado.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A realidade é a carne crua exposta em cima da mesa:
mesmo depois de morta 
continua
sangrando.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Eu ficava assim triste pensando 'não guarda mágoa de mim não!' eu ficava assim meio muxoxa refletindo sobre cada um dos passos do lado de cima da corda bamba, sobre todos os erros-quase-mortais nos saltos-quase-mortais que eu tive de dar para driblar a própria morte e aí eu lembrava que teve um dia pior do que todos os outros em que eu estava pior do que em todos os outros e que nesse dia eu te falei coisas duras e pisei nas suas unhas encravadas nos dedões dos pés e se te pareci insensível às lágrimas de dor ou de raiva foi porque eu precisei sabe? Não guarda mágoa de mim não porque eu sou um bichinho arisco de vez em quando, desses que se escondem debaixo do sofá e quando muito muito muito acuados abrem as patas e lá existem unhas que podem arranhar um pouco mas é que eu sou bem humana mesmo que às vezes lhe pareçam incríveis os saltos-quase-mortais a cabeça na boca da leoa ou a grama de alfinetes eu também não sou infalível e pensei mesmo que por um instante insano eu pensei que você precisava ouvir ou que eu precisava falar pra você ficar bem. Não guarda rancor não coração você é a minha corda bamba entende você é a leoa que eu tenho de juntar coragem para me entregar, me encontrar, enfim...

domingo, 9 de outubro de 2011

(...)

O pano rasga de exausto por carregar o corpo ou as moedas. O pano esfregado rasga suas fibras ao meio, aos mols, e destitui seu próprio poder, sua própria função. Meus bolsos se rasgando de pouco, dia após dia, sofrendo erosões cotidianas, intemperismo, tentando desgraçadamente suportar os meus acessos de raiva e ingratidão, em que cerro os punhos puxando-o em todas as direções. O papel rasga suas células jovens. Rasgo as palavras que te escrevi n'algum lugar do passado: palavras como 'amor' e 'saudade' sangram quando rasgadas, assim como os pulsos ébrios dos amantes desmedidos. Minha lâmina e minha veia em total comunhão de bens - todas tornando-se una -, a pele aberta como um envelope e os líquidos em jorro, as moedas no bolso fatigado; construídos por tecido vagabundo (meu corpo e meu bolso) sangrando e chorando a perda do outro, te escrevo no corpo com esse sangue fresco que é a morte ativa daquilo que podia ser eterno atravessar os séculos post mortem etc. Meu coração é o fino feixe de força que me força a fingir a ausência da fúria, a fuga discreta pela porta lateral, os olhos fixos no além, o corpo físico no aquém, um último suspiro... rasga, meu coração.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sobre a saudade

Saí para andar pelas ruas do meu bairro... para ver se encontrava nas esquinas e quarteirões, que são a minha história, um motivo paras minhas perdições. Então caminhei por todas as ruas que banhadas de sol ou de lua ou da chuva de outrora enfeitam a memória destituída de ciência ou coerência. Nos meus passos, que alternam entre o desequilíbrio controlado e o equilíbrio precário, percorri caminhos que há muito não se delineavam sob meus pés. E então concluí: aqui jaz o meu passado. Enterrado por um dos muitos prédios que eu assisti serem construídos da minha varanda - e hoje já se tornaram decrépitos, tijolos mal-empilhados sobre uma terra mal aplainada com a pintura gasta e a arquitetura obsoleta. As casas para alugar juntando pó e saudade, que foram construídas numa época outra, apesar de há tão pouco tempo, se erigiam acima da minha miséria, do meu desespero: cadê o campinho em que eu soltava o cachorro e depois tinha que sair correndo atrás para não perdê-lo para sempre? A guia mal feita, com coqueiros que impediam a passagem, agora é um calçadão feito por designers - mas também já se tornou demodê. Fugi para os refúgios de antes: Ana Carolina? Não mora mais aqui. A Helena do 24 se mudou faz tempo. André? Que André? Estou sozinha entre escombros de mim mesma. Porque então eu compreendi: eu sou esse bairro que já é uma fruta mordida oxidando em cima da mesa. Eu sou esses prédios desinteressantes aos olhos das novas gerações de compradores moradores etc. Eu sou a calçada nova que já é velha - e até o cachorro se perdeu para sempre...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Da pacífica loucura

Nossa loucura já foi tratada. Já fomos educados, castrados, domesticados: quantas porções de vegetais, nenhumas porções de gordura, uma cápsula de óleo de alho para o coração, não gritar de felicidade ou infelicidade extrema. Aliás, não sentir felicidade ou infelicidade extrema. Não catar fruta no é e não comer alface sem antes esterilizá-la. Não amar na frente dos outros. Nossa loucura foi consumida, extinta, e nós engolimos toda essa sanidade como quem engole um tapa na cara - e acreditamos que a escolha foi nossa.
(E como não dizer que essa também é uma loucura?)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Querido,

estou te ligando para te contar que o amor morre sim, viu, que sem cuidado a grama cresce até além do joelho e não se pode mais caminhar. Eu queria, queria que você soubesse que aos poucos a lembrança tua se torna erva daninha e eu sou forçada a te arrancar, assim pela raiz, sem muita dó - pois que mesmo sendo uma coisa ainda um pouco viva, atrapalha a beleza do meu jardim. Nem um interesse no meio da tarde, o amor vai definhando, assim, numa cama de UTI, sozinho no horário de visita: pra quê lutar pela sobrevivência se não lhe é relevante? Era só isso que eu queria, te lembrar de novo e de novo, para não ser uma surpresa quando o meu amor por você estiver sepultado - mas aqui não cresciam flores?

sábado, 10 de setembro de 2011

Amor morre na pausa da música.

Na quinta-feira última, o amor finalmente sucumbiu, após meses de intenso tratamento e tentativas repetidas de renovação. Parece que tentaram postergar a perda apertando o pedal direito do piano, mas logo o fôlego acabou e o grito tornou-se suspiro e daí: silêncio. Contrataram o melhor afinador da Escócia, da França e do diabo, mas os especialistas afirmam que o amor não estava desafinado nem desajustado, estava morto mesmo. Os médicos legistas isolaram a área após algumas horas e o corpo amorfo ainda está em estudo. A causa mortis está sendo deliberada: alguns afirmam que o amor foi abatido por uma doença letal, apenas. Outros radicalizam, gritando com cartazes nas ruas que foi homicídio e reivindicando a prisão do culpado. Existe também a ala dos que creem na morte natural: "Velhice, desgaste, são processos que assombram todos os relacionamentos, é cientificamente comprovado. Nos resta questionar apenas o motivo de este ter durado tão pouco tempo", afirma um dos médicos responsáveis pela autópsia, que preferiu não se identificar. O amor vinha se queixando de falhas em seu funcionamento há alguns meses, segundo fontes, mas havia passado por uma alta animadora - que se mostrou momentânea. O corpo inerte foi encontrado na noite da quinta-feira, aparentemente vitimado por falência múltipla. Não havia ninguém no recinto, mas os vizinhos afirmam ter ouvido músicas no piano horas antes. O corpo aguardará no IML (Instituto Médico Legal) por 15 dias até que alguém faça o reconhecimento do corpo e, em caso negativo, será enterrado em vala comum.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

- Foi assim: acabou. Acabou porque... acabou porque nós não cabíamos em nós. Não! Foi porque eu não cabia dentro dela - acho que nunca coube. Sabe quando você encontra alguém que se sobra por todos os lados, e por isso mais nada lhe cabe? Ela é assim: vazando seu jeito, vazando suas graças e sua alegria: e só. Meu corpo não conseguia entrar no dela, porque sobrava corpo dentro do seu próprio corpo. Meus sonhos jamais poderiam ser os sonhos dela, porque de sonho ela já se quitava. E então... então ela descobriu que eu não cabia nela, e não pôde nos suportar. E ao mesmo tempo eu descobri que eu jamais poderia fazer parte dela, e não pude nos suportar. Não nos vale discutir o amor que ela sente ou que eu sinto - porque nós sentimos! Sentíamos, sei lá... Não! Não morreu. Nem eu por ela nem ela por mim. Nos amamos. Mas não podemos, eu não posso. Sei lá.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Fluxo de Consciência: Desespero

Me apoia na ponta dos pés me segura na prontidão do abismo e me prepara para alçar o último vôo em direção ao desconhecido e aumenta o volume da música até que seja tão alto que eu me esqueça dos meus próprios pensamentos e possa descansar de mim mesma já que há muito venho me torturando sem ter para onde fugir, cuida de mim e me leva para longe de todo o mal amém me guarda das dores que me açoitam assim assim no plexo solar assim assim que antes de machucar qualquer outro é a mim que dilacero, esquartejo é a mim que destruo antes de olhar ao redor e encontrar você que existe e não precisa de mim para ser mas eu preciso de você antes de todo o resto assim assim porque você tem a paz que eu preciso para mim para sobreviver a mim mesma antes de tudo o que vem depois de mim segura quem não pode mais se segurar

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Ode ao amigo, comigo.

A velha sábia que mora dentro de mim sussurrou aos meus ouvidos: pouca coisa sobrevive ao tempo-espaço. É preciso cuidar. Mais que isso, é tempo de cuidar. Porque as relações fenecem. A tua melhor amiga hoje já é quase uma estranha; o teu porto seguro não lhe faria mais nada; a tua companheira para qualquer aventura não te liga para bem nem para mal; o teu grande-amor-pra-vida-toda já não é mais amor, tampouco para a vida toda. Por isso é necessário agarrar-se ao que sobra, lutar mesmo como uma guerreira, jogar contra o destino na tua capoeira, desengonçada ou não. Brigar com as tuas unhas de gata, dentes de loba, com a tua força vibrante: para que não haja adeus. É preciso que lutem juntos, vocês, dois a dois. É preciso que ainda haja o inadiável desejo de saber (qualquer coisa), porque se não perde-se o sentido do elo. Perde-se para a eternidade: e vocês se transformarão em cartas antigas, fotos amareladas e vídeos perdidos que falam de um tempo que foi tão bom...
Por isso: é preciso cuidar.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A natureza apodrece.
A natureza apodrece
o homem, o bicho e a flor.
A natureza destitui-se
e transforma o próprio sumo
em sua própria mortalha.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

À flor da pele

Poros. Toque.
Me enrosque
me enlace.
Me leve com você.
O amor não morre assim:
a pele também tem memória
e não vai te esquecer...

sábado, 13 de agosto de 2011

Eu vi o mar

A palavra está morta. Morreu numa tarde quente de quinta-feira de agosto. Assim: pendeu para o lado e perdeu suas forças vitais. Ninguém percebeu quando. Mas não havia sobrado nada. E o homem é um bicho feito de palavras: em cada gesto. Em cada pensamento. Em cada intenção. Já não havia sobrado nada. Portanto, o humano homem havia morrido naquela quinta-feira de agosto. E não havia mais o quê desenvolver. Jamais se poderia discutir a peregrinação das aves ou o papel da memória na pedagogia grega. Jamais se poderia elucubrar dias e dias sobre Deus, a Física e o almoço do dia seguinte. O que sobra de nós quando não há mais a palavra??

- E o que simboliza a alma humana?

Eu vi o mar

A palavra está morta. Morreu repentina no momento exato em que você beijou minhas mãos e me segurou bem perto. Pela primeira vez não havia a necessidade de palavra alguma: e ela soube. Quando os nossos corações sentiram tamanha paz e tamanha comoção e tamanha sincronia nós atingimos tal nirvana ou qualquer outro nível elevado de alma. E então a palavra desfez-se em poesia - não o poema escrito no papel, mas a Poesia dos instantes de silêncio que separam a última palavra de raiva e a primeira de amor. Naqueles 10 segundos, a palavra estava morta para sempre: nos centímetros que nos distanciavam, na casa, no cosmos, dentro de cada um de nós. E renasceu junto conosco, novamente eterna como nós jamais seremos.

- E o que simboliza a alma humana?

Eu vi o mar

A palavra está morta. Enterrou-se sozinha através dos séculos: definhou conforme os poetas morriam e mais ninguém se dispunha a senti-la ao invés de analisá-la. Ora, e o que é o homem sem a palavra? Um corpo que olha o tempo. A palavra morta, o próprio tempo morto. Mais nada pôde acontecer. 

- E o que simboliza a alma humana?

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Quando o caos é tamanho, sabe? Quando existem milhares de pessoas ao teu redor, todas porque sim, todas porque estamos juntos nisso seja lá o que isso for, sabe? Quando para não enlouquecer com o som dos apitos você tem de apitar ainda mais alto?! E então eu apitei. E gritei nossos hinos de fúria. Fúria porque sim, porque estamos juntos nisso seja lá o que isso for e o que isso é; é fúria: e raiva e indiscrição e a eliminação total do desejo de ficar 'assim tudo bem, mais ou menos mas a gente vai levando uma dor aqui um pesar ali'... Fúria porque perdemos a disposição para aceitar: Que você me subjugue. Que você me desrespeite. Que você me esqueça numa viela escura tentando me recompor da sua violência. Do seu descaso assassino. E estávamos ali, gritando que ser mulher é muito mais do que a tua força física sobre o meu corpo: e então eu era mulher. Em toda a minha intensidade. Afirmando ao mundo: sou mulher e isso é merecer. O teu respeito. O teu e o de qualquer um. Cantando num mar de outras mulheres mulheres como eu, ansiando o final feliz, o espaço, o tal do direito ao grito. Então nós gritamos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A Festa

De repente, me dei conta: você estava comigo. Apesar dos ventos contraditórios, das dunas e pirâmides que se haviam construído entre nós, apesar dos desastres naturais que insistiam em nos separar, nós dois conseguimos: estávamos ali, no meio daquela sala dentro de um mar de seres humanos completamente alheios à nossa identidade, olhando um par'alma d'outro. Eu jamais poderia olhar ao redor. Porque era você na minha frente. Éramos só nós dois, completamente alheios à presença de um mar de outros seres humanos. Havíamos conseguido. Havíamos conseguido... quebrar a parede que nós mesmos construímos entre nós, sem que qualquer a houvesse desejado. Por isso era um momento mágico. Porque as dunas, as pirâmides, os ventos, os desastres, a parede, o gelo, a barreira, o abismo - todas as metáforas que eu poderia citar para explicar a distância enorme que existia no metro que nos separava - havia cessado. Assim, de repente mais nada fazia sentido: os últimos meses silentes, o choro escondido do resto do mundo, as cartas jamais endereçadas - e também as endereçadas -, tudo: finito. Só sobrou eu, você e a distância de um abraço.

De mais um coração partido:

ABRE ASPAS

- É assim, Jú, doi pra caralho. Aí você chora, chora, chora, e um dia passa...
- Você me promete que passa, Ju?
- ... não... porque eu ainda choro.

FECHA ASPAS

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

E eu lhe aviso: tu nunca mais entres com esses teus pés sujos no meu templo, pois ele me é sagrado. Fui eu que construí. E tu sujas teus pés com teus pecados infames, com teus trejeitos podres de quem não aceita dividir - e entras no meu piso, ultrapassas os arcos da minha entrada, pisas sem qualquer remorso nos tijolos que eu empilhei - eu sozinha, sim? -, eu empilhei no meu coração e tu me trazes a terra mofada e impura e me levas toda a paz que eu havia conseguido com sofreguidão manter incólume, pura, assim, eu que selei estas minhas paredes com o sangue e o suor que vazaram da minh'alma para que construísse algo que me pertencesse acima de todas as coisas... mas teus pés sujos de areia e poeira espantam minha luz e tu me roubas, me extirpas o mármore etéreo, que foi tudo o que eu consegui para mim enquanto estivestes longe... por isso afasta-te! Eu lhe imploro, já que não posso mais que isso, eu lhe imploro. Nunca mais aparece com o teu egoísmo para macular o pouco de paz que ainda me resta.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Foi assim:

O toque macio de grão por grão, como se o mundo me acarinhasse. A pele. Envolvendo um corpo estendido na areia. Como se o vento fizesse cafuné nos meus cabelos, cantando baixinho que eu ainda não morri. E eu jurei que lutaria com todas as armas: assim, uma esperança absolutamente inédita explodindo de dentro para fora, calafrios, tremeliques, danças na pausa que se fez, dentro de um abraço de concha e areia. E então: desejei. Como nunca antes. Desejei ser muito, muito, muito feliz. Com essa simplicidade toda. Desejei ser feliz e imensa. Desejei ser plena. O gozo, o gosto bom de ser livre. Muito livre e muito plena. Era isso, Deus - ou os orixás, Iemanjá, o Divino, Zeus, Amon-Rá, todas as entidades realmente poderosas desse cosmo ou dessa alma que escreve - me entregando em cada grão de areia um motivo para. Um mol de motivos para. E eu fui.
era tudo o que sobrou daquilo que um dia nós fomos: uma raiva profunda; um rancor amargo; quem sabe um certo ódio latente, prestes a explodir. E uma saudade, daquelas de olhar para fotos-bilhetes-e-outros-sinais-daquilo-que-um-dia-nós-fomos e ficar assim se perguntando o que teríamos sido se, ou elucubrando sobre qual seria seu paradeiro ou se porventura você ainda pensaria em mim nas tardes mais ou menos ensolaradas de setembro- ou qualquer outro mês. -, como aquelas de quando nós fomos. Foi o que sobrou. E por mais que tentasse me livrar dessas últimas ruínas, não havia Adeus completo. Eu ficava listando quais são os 5 passos do luto, aquela baboseira toda de raiva-negação-barganha-depressão-aceitação e percebi que eu alterno entre elas sem nunca chegar na aceitação. Sabe. Acho que é porque você não morreu - nem eu! -, nós só não somos mais. E aí eu às vezes acordo com o gosto do-que-sobrou-daquilo-que-um-dia-nós-fomos na boca, e é um gosto ocre de fracasso, de impotência, sim? E então não posso mais dormir e fico mastigando essa coisa amorfa e podre que é o amor-que-acabou-sem-que-realmente-houvesse-acabado... até o próximo amanhecer.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

,

o mundo é ingrato a todos os desmedidos. A mim, que amo desmedidamente, a ti, que és a indiferença incontrolável. Cuida, rapaz, cuida dos que te protegem, pra que você não fique sozinho, realmente abandonado na sarjeta ou no escuro do quarto. Por mais interessante que você seja, ninguém suporta por muito tempo ter certeza de que é dispensável. Por isso cuida, explicita as coisas que se passam aí dentro, seja mais que intenções: sê ações. Segura na mão do outro, estuda bem quem se propõe a atravessar ao teu lado; não deixe de lado os que te querem bem. Leva isso pra vida, menino, pra não acabar solitário no mundo.  Pra não acabar vagando, sem ter pra quem ligar quando você sentir medo do fim. Cuida, cuida, repito, é preciso cuidar e para cuidar é preciso coragem para olhar para as feridas pestilentas de quem se põe ao seu redor.  E todos temos feridas abertas, o sangue escorrendo, infecções, cortes, enfim. É preciso perder o nojo da humanidade para encontrar o seu lugar dentro dela. É preciso doar de si: o sangue, um órgão ou apenas um abraço, um mero sorriso cúmplice, um jeito de se afirmar 'aqui contigo, meu irmão'.

domingo, 17 de julho de 2011

Vó,

hoje lhe escrevo porque, como sempre, não pude falar quando foi a hora. E preciso falar, mesmo que você jamais saiba: eu me esqueci, vó, que a morte também vem para os leões e outros Seres Especialmente Fortes Apesar De, eu havia me esquecido mais uma vez, vó, que a morte também vem para você, apesar de você ser uma mulher de garras e dentes e unhas e todas as outras formas de se proteger e se manter firme: afinal, como você poderia se proteger de si mesma, das falhas que podem ocorrer dentro do seu corpo sem que você possa se colocar na frente de hemoglobinas, plaquetas, leucócitos e outras coisas minúsculas que insistem em não funcionar, em sangrar por dentro, em impedir o perfeito funcionamento, etc? Como você poderia entrar dentro do próprio cérebro e impedir mais um acidente vascular prestes a ocorrer, a qualquer momento? E foi ali, vó, dentro daquela sala comum de UTI, vendo você dormindo tranquilamente - apesar de. - que eu pude ter certeza que quero ser uma mulher como a senhora, dessas que acordam e, com um sorriso banguela e os olhos cheios de lágrimas de gratidão porque a sua netinha veio visitá-la, juntam a coragem para humildemente pedir desculpas por ter estragado o meu aniversário - sendo que aquele momento estava sendo o meu maior presente: o teu sorrisinho banguela e a tua mão com eletrodos ou seja lá qual for o nome daqueles fios pendurados monitorando a tua força vital, vital, humana vó! E então agradeço às Forças que regem o universo, que não foi desta vez que te perdi pra sempre, mais uma vez sem nunca ter dito que te amo, te amo te amo, nunca disse porque nunca juntei coragem, nunca porque você sempre foi forte demais: e então você ali com toda a coragem do mundo de lutar contra o medo da morte.
Obrigada, vó, por continuar me ensinando, mesmo sem perceber, na maca com eletrodos e um sorriso sem dentes...


E por favor alguém me traga essa dentadura!!

(Que é pra você morder a morte com toda a tua força. E afugentá-la.)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Andrajos

que era esse meu novo desejo de ser outrem: sei lá, fazer coisas erradas e não me importar muito. era esse meu novo jeito de fugir, porque estive e estou precisando de escapes, escapes já que não tem sido fácil ser esse monte de casca e pele e dor orgânica que eu me vejo hoje, diante desse espelho que é uma lasca do infinito e me mostra: indigente. tô sentindo tanta coisa ruim, sabe, diriam que estou me destruindo e acho que sim. é a falta de escapatória. vejo o Mar e o Mar é gigante mas não tenho como me aninhar nele e nele esperar tormentas tempestades e outras tragédias naturais - ou não - passarem. entende?, por isso ser outrem, para sobreviver por um fio de cabelo, irreconhecível ao resto do mundo ou de mim mesma, irreconhecível porque aquele último abraço continua tão dolorido aqui dentro, como um último abraço de adeus quando era 'não, fica por favor' mas não há como ficar, estou precisando de carinho, eu acho... um lugarzinho quente onde possa me aconchegar e que alguém venha e faça cafuné nos meus cabelos, sem me dizer nada, sequer uma palavra. Repito: não preciso de palavras. Porque palavras dissimulam demais e dissimulação já é a minha arte: quando tudo que eu quero é chorar mas rio alto que é pra que todos saibam que está tudo bem mesmo quando não, não está nem um pouco bem, sabe? E esse meu riso estratégico é um jeito de ser outro ser, mas um ser incompleto porque voltar pra casa é perder a persona e perder o brilho ou seja lá qual palavra se quer utilizar nesse momento, eu sou opaca... triste... fraca...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Querido,

hoje preciso de ajuda. Um ombro, uma mão, um corpo, qualquer coisa que me apoie de qualquer jeito... preciso poder abandonar meu corpo, minha cabeça, minha mão - qualquer coisa - noutro ser pulsante. Não preciso de tua voz nem de tuas palavras porque não preciso ser consolada: preciso de mais que isso. Preciso poder permitir que meu choro inunde rios, rios amazonas tejo nilo prata tigre paraná tamisa...  Preciso me deixar do lado de fora da sala, junto com o casaco e os sapatos, e assim descobrir até onde minha força me leva. Preciso que algo muito bom me aconteça, para que eu continue sendo capaz de sonhar: que vai melhorar, que vais mudar, que o dia ainda não acabou. A tua partida é um pouco como a minha partida, me entende? É como se levasse contigo mais um pedaço meu - e tenho perdido tantos... Ao ultrapassar essa porta te perderei para sempre. E, portanto, me perderei também. Como te resgatar?, me responda por favor! Como te resgatar se tudo sempre te leva mais pra longe, tão longe que meus braços são incapazes de te segurar sequer pelos trapos da roupa? E hoje eu sei. Hoje eu sei que não há mais volta. E talvez me faltem forças pra suportar mais uma vez...

domingo, 10 de julho de 2011

and i love you so much, i'm gonna let you kill me

o plano é te arrancar da minha vida aos pouquinhos: como quem esfrega desenfreadamente a pele a fim de se livrar de uma tatuagem. Uma foto que retirei do mural (mais uma vez), achando que retirar fotos de um mural seria suficiente para me livrar de um parasita que há muito se escondeu entre os meus cabelos, n'algum canto escondido da pele, e me tem atormentado os pensamentos, as noites insanas de insônia etc etc etc. Como se não me permitir ler tuas palavras fosse o passo decisivo pra não mais ser atingida; mas sou atingida pelos pensamentos teus, tão perto que sou capaz de sentir tua presença e seguir teus passos. Sem anestesias, com facas pontiagudas corto minha pele, como se uma sangria fosse capaz de estancar o veneno que é bombeado não apenas para os órgãos, tecidos, células etc etc etc mas para mais dentro, mais, mais... tão dentro que às vezes creio que o que me ocorre é morte múltipla, parada cardíaco-cerebral-almática entre outras coisas... então finjo que não e ainda sorrio enquanto rasgo, queimo, quebro, rabisco, escrevo palavras e palavras cheias de raiva, rancor, mágoa...

inócuo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

, e é por isso que me sento aqui na calçada e converso com você. Quer dizer, falo com você, porque sou uma daquelas mulheres que quando começam a divagar, o outro não tem vez. Mas eu já sei o que você tá pensando: em contar aos seus amigos que uma desesperançosa te interceptou no ponto de ônibus, bem na hora em que você ia abrir uma página de cruzadinha. Odeio pontos de ônibus porque sempre fico me perguntando se todas as pessoas estão indo para o mesmo lugar, se eu estou indo para o mesmo lugar que todas as pessoas... odeio também esses ônibus que dão tantas voltas em todas as ruas cinzas que até me esqueço do meu destino. Um cigarro cairia bem agora, no meio deste discurso. Mas eu não fumo. Se tivesse vontade, fumaria: mas não tenho. Nunca tive. E agradeço sempre por não sentir vontade de algo tão masoquista. Também não bebo muito. Quando tenho vontade, bebo. Mas não tenho vontade muitas vezes. O problema é que quando vem, vem um desejo louco de beber todas: conhaque rum vodca pinga vinho o que me derem na mão. Só sinto vontade de beber quando não suporto mais a realidade. E eu vou te dizer, menino, às vezes a realidade é a-ter-ra-do-ra.  Medonha, sim? Sabe quando você vê um filme de terror tão terrível que passa meses - meses! - com medo de olhar através das janelas? A realidade é bem isso que está atrás da janela. E às vezes eu tenho um medo fo-di-do de olhar através. É bem isso mesmo, menino, você vai sentir na própria pele, vai ver tudo com esses teus olhos castanhos. Ai ai ai... a vida costuma brincar de pega-pega com a gente...
O meu ônibus chegou! Você vem?!

Então nós não vamos pro mesmo lugar!

domingo, 3 de julho de 2011

Que seja doce,

eu implorava aos deuses e às forças motivadoras. Que seja doce e que seja natural, porque afinal quem é que suporta sentir dor por tanto tempo? Que haja luz, meu bem, pra você me olhar nos olhos quando chegar a hora. Uma garrafa de conhaque a tiracolo, que seja lúcido meu amor. O ponto é que ninguém aguenta por muito tempo ser quem se é... ininterruptamente. Que seja liso, plano, que não me corte a pele, meu amor, já que eu já tenho na alma umas porradas que não há descanso que resolva. Clareza, meu querido, é tudo que peço. Aquela clareza que nos faz encarar a vida e escolher. Finalmente, definitivamente... escolher.
eu que sempre fui a bambambam a dona Força com éfe maiúsculo, eu que me achava capaz de brigar com monstros meus e dos outros, com fantasmas meus e dos outros, a dona Vitória com vê maiúsculo, eu que acreditava num deus que não jamais resolveria nada em mim, apenas existiria com suas entidades e energias, eu que era daquelas que atravessam pátios e pátios sozinha mas com o mundo ao redor mas sem traumas, sem traumas meus amigos, eu que era Feliz com éfe minúsculo porque era uma felicidade frágil mas eu que acreditava que era tudo muito bem tudo muito bom sem traumas, o plexo solar em plena iluminação eu que via a solidão como a beleza do universo, a beleza dos séculos em ser minha e de todos que me amassem eu que vinha de prepotência e sucesso em tudo tudo, acabo de depositar francamente todas todas todas as minhas últimas esperanças com e minúsculo no Divino Espírito Santo, justo ele que antes era uma pobre pomba e hoje é o Divino Espírito Santo lê a fita vermelha que eu pendurei no teu mastro por favor me escuta os pedidos e conversa aí com os Santos e com o Deus com dê maiúsculo uma reunião de um minuto não vai comprometer a Eternidade de vocês, me dêem uma força por favor que tá me faltando lugar de onde tirar, nunca mais te chamo de pomba, ou talvez Pomba com pê maiúsculo, lê a minha fitinha Divino, lê pelo amor de Deus?