quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Classificados

Procura-se
- desesperadamente -
alguma resposta.
Qualquer resposta que me puderem oferecer
hoje não me preocupo com as perguntas,
se houver uma resposta, 
com certeza ela responderá algo que eu estou perguntando
Porque eu estou perguntando
quanto é dois mais dois.
onde ficam os sonhos quando estamos acordados.
o que é Deus.
se eu estou bonita hoje.
quão bem você foi na prova de biologia.
será que posso ficar em paz.
o que significa 'epifania'.
quem sou eu.
o que significa 'amor'.
se você lembra.
se vai ficar tudo bem.

Implora-se, implora-se de joelhos
por respostas,
por um alento que seja. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

pequena descoberta

como se o Mar
é como se eu finalmente visse que o mais importante não é o Mar, nunca foi o Mar,
o mais importante foi quando eu nadei dentro do teu Mar
e hoje estou seca, e também é perfeito,
porque o sal do Mar me grudava na pele e eu tinha ânsia por ar, apesar de não querer sair
e o som do Mar é apaixonante, mas por ser repetitivo
eu às vezes queria o silêncio.
Porque Amar foi importante apenas enquanto eu e o Mar
nos amamos...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Procure pelos meus documentos
Meu nome é o mesmo
Os números que me registram?
São os mesmos...
Minhas fotos 3x4
e o meu próprio rosto
(que você pode tocar)
não mudaram nada...

Mas, apesar de nem todos poderem perceber
saiba que eu mudei
Mudei inteira por dentro,
e eu acredito que você poderá compreender...

Os aviões detonaram bombas
e interromperam a sístole diástole
de Mim que corria
pelo jardim
e um pedaço de Mim
não suportou a explosão...
Mas eu sei que você vai compreender.

Das Revoluções

O mundo precisa de pessoas como vocês, que desejam mudar todas as estruturas, destruir organizações do país, vocês que precisam bater panela na Administração, no Senado, no Planalto Central... Eu jamais poderia ser como vocês. Eu quero as pequenas revoluções, quero apenas ser capaz de mudar as pessoas, uma por uma,  destruir as organizações cotidianas que as machucam, quero bater panelas na porta da alma de uma pessoa triste para que, nem que por um segundo apenas, ela se sinta motivada a sorrir...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

De cima de palco, o olhar iluminado pelos refletores e a alma, como uma fratura exposta, escorrendo de dentro para o mundo. A garota vivia o seu momento iluminado pela expectativa da plateia quando seus olhos, por acaso, se cruzaram com os do rapaz que a assistia, silenciosamente. Talvez fosse fascínio o que ele sentia, talvez estivesse envergonhado por estar vendo tanto da essência daquela garota desconhecida que se entregava tanto, talvez o rapaz estivesse apenas com a cabeça nas nuvens, em outro lugar, mas ela sentiu uma faísca naqueles olhos castanhos e percebeu que seus olhos, por um segundo, brilharam ainda mais. De repente, sentia medo daqueles olhos lindos e foi escondendo sua alma, aos poucos, até perder toda a sua espontaneidade, até esquecer as falas e perder as entradas na cena... Até perder por completo os olhares do rapaz.
Hoje ela atua como muletas, apenas apoiando os brilhos dos outros, mas sempre procura pelo rapaz e seus olhos castanhos, que nunca voltaram...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Assim, o sonho seria uma válvula de escape
para as nossas almas amedrontadas
perdidas dentro da realidade, 
cansadas da existência
do ser humano sério...
sem essência. 
Sonhar e viver uma outra realidade
diferente da minha, diferente da nossa
dos nossos dias que se arrastam conforme o vento
Nos meus sonhos, posso ser outro eu
estar com outro alguém, 
e ninguém pode nos afirmar que é mentira,
nós vivemos o sonho...
Apenas não o realizamos aqui. 


(Para Marina)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Tanto que bateu
que bateu bateu bateu
tanto que bombeou o bom
o mau humor
não lhe bastou pouco,
não lhe bobeou o medo
mas meu coração
de tanto bater
e de tanto apanhar
meu coração
está desbotado...

Definição

 (e.pi.fa.ni:a) 

sf.
  1  Rel.  No cristianismo, revelação, manifestação de Deus, ou sua encarnação em Jesus 
  2  P.ext.  Rel.  Manifestação da divindade, em outros cultos 
  3  Rel.  Comemoração, a 6 de janeiro, da visita dos reis magos, primeiro sinal da vinda de Cristo 
  4  Fig.  Percepção intuitiva da essência, do significado de algo ou da realidade, por meio de algo corriqueiro, inesperado; REVELAÇÃO. As epifanias de Joyce, fontes de sua arte 
  5  Representação artística de uma epifania 

 [F.: 0 Do gr. epipháneia, pelo lat. tard. epiphania e pelo fr. épiphanie.]

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Pegou o troco de mal jeito, amassando-o imediatamente dentro da carteira, com uma pressa inexplicável, não fosse a aflição de fugir daqueles olhos que pararam ao seu lado para mirar sua face...
"Na verdade, seus olhos são abismos dentro dos quais, admito, pretendo me perder", eu pensei, sentindo algum arrependimento por ter, de fato, me perdido naqueles olhos que agora me fitavam com alguma curiosidade. Ao parar ao meu lado, olhando para mim, no que ele pensava? Sentia alguma esperança de que eu me desfizesse do eu silêncio e agisse normalmente, como os amigos que pretendemos ser? Ou apenas me analisava, na minha fraqueza indescritível, até na hora de receber o troco? Será que você sentiu dó de mim por eu estar sofrendo tanto?
E eu, ao sentir tua presença, sem nem te ver, senti medo de que você quebrasse o meu silêncio e tentasse falar comigo. E senti medo de não aguentar te ver ao meu lado e acabar te abraçando e chorando as tuas lágrimas nos seus ombros. Então guardei o troco como pude e apenas olhei nos teus olhos (ah, abismos que já foram meus) antes de me virar e ir embora, segurando minha alma dentro do meu corpo como pudesse, para não desabar...

Apelo: aos que já cresceram

Não permitam
por favor!
não permitam que a tinta seque
da ponta das canetas
ou que o brilho apague
na ponta dos dedos
que antes apontavam estrelas
as estrelas despontavam pelos teus dedos...
Por favor, não desistam
de sonhar como as crianças
de desejar mudanças como os adolescentes
não se esqueçam
das primeiras sensações, continuem vivendo-as
Por favor, não cresçam completamente
por favor, tentem aprender uma língua nova, a tocar bateria,
não me deixem aqui,
não nos deixem aqui com os sonhos nas mãos
e a esperança afogada debaixo dos pés...

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Do exílio

Que é do exílio a solidão
(E do pranto, o meu silêncio)
Sabendo que vou contra as leis
dos Direitos Universais de um
ser humano
Me perdoe por nos desrespeitar
Roubar teu passaporte
te excluir da minha nação
Me perdoe por te exilar da minha vida
As minhas dores são interestaduais
E desrespeitam o relevo do país
Minhas dores têm o seu nome
e eu não pude te levar comigo
Quando esta ditadura
- cujo ditador, ironicamente, é você -
acabar, poderei lhe admitir novamente
E sua nacionalidade será devolvida
apenas numa casinha menor
do meu coração...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Mas vós, por favor,
não riam de mim:
depois das minhas metáforas, sinestesias, metonímias,
o eufemismo nas minhas lágrimas
e o bom humor com que emprego
as dores do meu parto, a partitura íngreme do meu timbre
Depois das minhas máscaras
que cuidadosamente construí, moldando-me às necessidades do riso
Se procurares bem, com os olhos críticos
dos magistrados literatos sozinhos
sou apenas
um só,
apenas um poema triste...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Dos verbos no infinitivo

O vento
meus pulmões
os seus pulmões, as aves
a atmosfera, o espaço entre nossos corpos
desejam o ar
anseiam o ar,
E o ar só espera pelo infinitivo,
enquanto nós enroscados conjugamos os verbos
voar, andar, abraçar, amar...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Da minha alma

A minha alma é tudo isso, encharcada pela chuva
que cai sem presságios de medo
e, ao mesmo tempo, brilhante pela luz do sol
que não parou de lutar, apesar das nuvens.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Cena a dois, para ser encenada em silêncio

JOAQUIM - Lolô, eu te amo... Você está com medo?
LORENA - Medo? Medo é pouco! Tem muita Lorena na tua mão,
JOAQUIM - E muito Joaquim na tua...
LORENA - E muito Joaquim na minha mão! Claro que tenho medo, não somos inteiros em nós... E se eu morrer, Joaquim?
JOAQUIM - Morre Joaquim contigo.
LORENA - Tenho tanto medo de morrer, e te deixar aqui, com um pedaço pulsante de mim, levando um pedaço teu que deveria pulsar comigo. Tenho medo de precisar ir embora, tenho medo de te deixar e você não conseguir encontrar uma paz. E tenho medo de, no dia-a-dia, ir te machucando, porque pode ser de eu machucar as pessoas, ir te machucando até rasgar a sua alma em dois pedaços irregulares...
JOAQUIM - A minha alma é dois pedaços irregulares... E você faz parte disso.
LORENA - Eu sei, Quim, mas tenho medo que isso doa em você...
JOAQUIM - Então você não quer nem tentar?
LORENA - Oras, se você não estiver com medo, eu encontro coragem...
JOAQUIM - Eu estou com medo, mas tenho mais coragem que medo... Se nos machucarmos, se morrermos, se nos deixarmos, pelo menos teremos vivido algo que, nem que só por um segundo - que seja esse aqui -, deu certo... E por isso valeu a pena. Doer depois também é tão bom quanto amar durante.
LORENA - Entao, Quim, eu te amo... Você está com medo?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O meu coração cantando a capella
e eu buscando uma música que te
delineie o corpo e a tua alma nova
Música que cante ao baque surdo
dos nós dos meus dedos apertados
do nós que existia e agora já morreu
O meu coração cantando a capella
e eu buscando em um acompanhamento
alguém que assovie essa minha canção
alguém que me segure muito forte
Até eu me esquecer da dor que sinto
E dos silêncios do meu mundo frio
O meu coração cantando a capella
E eu me esquecendo de morrer, em paz.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

- Cê tá bem, neguinha?
- Não, não, não, não, não, não, não tô nem um pouco bem! Eu me sinto sozinha, apesar de ser tão injusto dizer isso, e eu me sinto fora de lugar, como se eu não pertencesse à minha própria casa, ao meu próprio corpo, e eu nunca senti tanto medo de uma vez, estou com medo do dia de hoje, da semana de hoje, dos meses e do ano que se segue, estou com medo de não aguentar a vida que eu própria preparei para mim, eu estou com saudade de quem eu era há um ano, há dois anos, e eu estou com saudade das coisas que eu vivi, estou com saudade de como eu me sentia em relação a tudo, ou à minha vida, eu estou com saudade de uma companhia que me complete, porque eu estou destroçada...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Atemporal

Ao temporal:
que tuas gotas sejam a minha saliva
que crêem na vida, como no mundo
pois o tempo não me rege,
nem eu rejo o tempo,
somos pequenas aliterações, metáforas
e apenas convivemos.
A tempo:
não se atrase, meu amor
pois a chuva que está para cair
alagará as ruas, me alagará os olhos
não se atrase, por favor,
que eu passei a vida a lhe esperar...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Estou indignada!
Quem vem ao meu quarto
- durante a noite! -
para entortar-me os quadros na parede
e desajeitar-me as as fotos no mural?

Então a (vo)vozinha me responde,
bem baixinho,
- São os anjos da guarda,
que vêm em silêncio
lhe discutir o seu metodismo!...

sábado, 16 de janeiro de 2010

Pedido

Por favor!
Livre-me dos meus silêncios!
Faça com que passe
a dor do parto, de quando me partiu
a dor da neve ao redor do meu interior
faça-me derreter...
Pois minha boca selou
um mundo meu, não o atinjo mais!
E foi por você...
Lhe peço... Lhe imploro!
Me toque novamente
A valsa dos seus dedos estalava estrelas
E me enchia de canção
Eras maior do que o Mar
tu eras maior do que o amor.
Volte aqui.
Me complete com o teu silêncio
o silêncio brando e pacífico
de um outro beijo...
Os pratos caíram do escorredor
o caminho para o céu é tão bonito
Posso falar de coisas ruins
ou crer em dias tão claros que me esqueço
- Eu te amo, porra! E não sei o que fazer com essa massa amorfa pairando, não sei se dentro de mim ou ao meu redor. Não sei se posso canalizá-lo ou transformá-lo noutra coisa, ou como me livrar disso. Se eu pudesse, imprimiria meu amor por você nos poeminhas bobos, nas prosas bobas, e jogaria o amor impresso na lata do lixo reciclável, para esquecê-lo... Mas não posso: as palavras têm efeito contrário e o amor me enraiza... Tentaria dispará-lo aos outros, mas é, mais que meu amor, o teu amor. É exclusivo, não posso entregá-lo a outrem. Não posso fazer nada mais que surpotá-lo, suportar-lhe e suportar-me.
As mãos dele procurando as minhas e meu coração implorando por abrigo

sábado, 9 de janeiro de 2010

Cartas Provisórias

Querido,

não sei por que lhe escrevo hoje. Não tenho muito a dizer. As cartas que se seguem não passam de meros rabiscos, traços da minha personalidade que eu rascunhei em papel manteiga e acabaram por escorregar entre meus dedos, antes que eu pudesse decorá-los. Perceba que não estou necessariamente falando com você, mas seja lá o que eu disser, é claro que  te inclui, como sempre. Não preciso que você leia. Eu não sou você.

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minhas são cartas provisórias porque elas não carregam nenhuma verdade que valha o resto de uma vida. Sou da opinião de que todas as cartas são provisórias, uma vez que as verdades costumam mudar durante o tempo. As palavras não são suficientes para eternizar uma verdade: apenas no papel. Dentro de mim, muda tudo, muda o tempo todo.

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não queria lhe perguntar isso agora, mas não consigo evitar: o que é o amor?

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Eu acredito que nunca vou poder responder a essa pergunta. Acredito apenas que amar é algo que vale a pena. Independente de quais as circunstâncias, experiências e finais, vale a pena.

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e daí que ela gosta de garotas? Que ela ame sem moderação suas garotas, que viva por elas, e que ninguém abra a boca para dizer qualquer coisa pejorativa, que ninguém se meta em seu amor, que não tem amarras.

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eu não sei se sei amar. Mas amo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Helena,

não me pergunte, minha princesa, o que é que tanto escrevo nesse caderno! Escrevo poeminhas bobos de um amorzinho cálido que me tem aterrado! Escrevo apenas bobagens, minhas pequenas descobertas, ou palavras instantâneas que me aparecem e eu tenho medo que me abandonem. Mas tenho vergonha que as leia, com a minha letra manuscrita, toda torta e truncada, e que me ache boba por escrever sobre o meu mundo, fazendo tanto mistério, como se escondesse todos os segredos da humanidade...

domingo, 3 de janeiro de 2010

Nascimento do poeta

JOAQUIM - Vê bem, Lorena, vê bem que teus olhos me enganam menos que os meus. O que está vendo, Lorena?
LORENA - Ora, Joaquim, não vejo muito mais do que você, vejo essa colina, e essas florzinhas que nascem ao pé das árvores, como filhos bastardos de um sonho que não aconteceu. Vejo esse sol, lutando para sobreviver ao afago das nuvens, e vejo essas nuvens, intrometendo-se aos caminhos do sol. E vejo a você, Joaquim, tão perdido quanto essas formigas passeando ao redor do meu pé, que se pôs no meio de sua trilha.
JOAQUIM - Percebe? Você me disse as coisas que eu não pude ver. Talvez, Lorena, talvez eu esteja tão faminto por algo que não sei o que é que tenha me cegado e não percebi! Será que você pode me ajudar a sair daqui, Lô? Escaparia comigo?
LORENA - E escapar para onde, homem? Precisamos ficar aqui, para ver os milagres que estão prestes a nos acontecer. Você nunca sabe quando um milagre vai acontecer. E se as flores voltarem à terra, entrarem pela raiz das árvores e brotarem novamente na copa, quase beijando o sol, que se já terá desanuviado?
JOAQUIM - E as formigas, Lolô, as formigas terão reencontrado o seu rumo?
LORENA - As formigas precisarão de um caminho, e eu não posso fazer esse milagre.
JOAQUIM - Pois os milagres que você me deu são falsos! Tão falsos que as minhas lágrimas também perderam o próprio rumo, e estão vagando descontroladas pelo meu rosto! E eu nem sei o que estão fazendo aqui, não me dói nada...
LORENA - Te dói tudo, Quim. Te dói o mundo, e eu te entendo, porque não há aspirina que resolva, não há anestésico ou tapa na cara que te faça passar a dor... É por te entender que eu preciso ficar aqui com você, mas também preciso que você fique aqui comigo, e nós esperaremos juntos que a dor passe. É a dor de existir, Joaquim.
JOAQUIM - Mas eu existo há muito, e nunca tinha me doído tanto.
LORENA - Não basta existir. É necessário descobrir que se existe. E então dói.
JOAQUIM - Ah, Lô... E o que eu posso fazer para passar?
LORENA - Procure um alento...
JOAQUIM - Um alento? Para a minha dor?
LORENA - Sim, procure algo que lhe faça esquecer, um grande amor, palavras cruzadas, filosofia, a sorte, esse fim de tarde, salvar alguma outra pessoa da dor que ela sente, tentar um novo dia, chorar as lágrimas até que faça sentido...
JOAQUIM - Não... eu preciso procurar mais perto, mais... mais perto, mais perto, mais, mais... Dentro, preciso encontrar dentro de mim. Isso que vai me desabrochar n'algo que me deixe em paz. Eu preciso encontrar dentro de mim algo que me dê paz, algo que me faça acreditar maior, algo que me faça acreditar que existir vale a pena! Preciso encontrar o que é essa angústia, o que é essa bola dentro do meu estômago, como eu faço sair? Preciso me encontrar com a minha alma, ouvir o que ela tem a dizer... Tirar de dentro de mim...
LORENA - Quim... Talvez você pudesse tentar... Não sei, é um caminho sem volta, talvez dolorido, mesmo que florido de flores poucos bastardas. Nos dias de sol, o sol lhe queimará até os pulmões, e quando chover você vai sentir o teu próprio corpo escorrendo das gotas. Mas talvez essa sua bola no estômago, a sua angústia seja necessidade de palavras: talvez o seu corpo esteja te mandando, te ordenando que você escreva, escreva, escreva, escreva, meu amor! Seja poeta, Joaquim, seja poeta e entregue ao mundo suas sensações, Joaquim, seja poeta.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Quem foi que disse ao céu que já é carnaval?
Quem permitiu que as cores transtornassem os meus olhos
sem que ninguém sambasse na rua?
Agora esses tons miscigenados
dançam dentro de mim, num ritmo lascivo
e eu não posso deixar de sentir os batuques do meu coração
ao som das cores sambando aos céus,
e se a  minha alma pudesse, voaria junto às nuvens, escolhendo
escolhendo qual cor - azul, vermelho, laranja, roxo, amarelo, -
lhe cabe melhor, se será necessária fantasia
ou apenas imaginação para participar do desfile...

Redenção

... mas você, por favor, não se perturbe com o meu amor! O meu amor, eu bem sei, não dura para sempre. Em mim, o amor dura o tempo do cheiro. Enquanto houver o seu cheiro dentro de mim, te amarei, e nem um dia mais. Portanto, haverá um dia em que eu me olharei no espelho e não me verei com um pedaço teu, e não me sentirei culpada por tê-lo roubado de ti, e é no momento em que não há mais culpa que o amor morre. Então, eu nunca mais lhe sussurrarei essas palavras tontas, entorpecidas e irreais do amor, e estarás livre para me deixar em paz... Meu amor, só não sabemos o tempo que nos vai levar... talvez o tempo te esvaia de mim, átomo a átomo, e talvez demore... Ou talvez um outro cheiro me grude na pele, me grude na alma, nos cabelos, me grude nos olhos, e você... você não mais me verá.
Como acontece a consciência da existência? Penso, logo existo? Sinto, logo existo? Acredito ue me sei um ser vivente quando descubro a morte. Acreditar na morte prevê a crença na vida.

Então, era um ser consciente de sua realidade humana, um ser vivo, pulsante, e sem sentido. Havia, agora, a necessidade de um motivo para seguir em frente.
Por te amar, sinto alguma dor. Por isso, hoje prometo jamais dizê-lo em voz alta. Jamais direi-lhe "Eu te Amo", pois cada vez que essas palavras escoam de meus lábios, o sentido se reafirma e esse amor me doi um pouco mais. Por enquanto, me conformarei em lhe escrever quantas cartas puder - em silêncio -, apenas para alguma distração...