A palavra está morta. Morreu numa tarde quente de quinta-feira de agosto. Assim: pendeu para o lado e perdeu suas forças vitais. Ninguém percebeu quando. Mas não havia sobrado nada. E o homem é um bicho feito de palavras: em cada gesto. Em cada pensamento. Em cada intenção. Já não havia sobrado nada. Portanto, o humano homem havia morrido naquela quinta-feira de agosto. E não havia mais o quê desenvolver. Jamais se poderia discutir a peregrinação das aves ou o papel da memória na pedagogia grega. Jamais se poderia elucubrar dias e dias sobre Deus, a Física e o almoço do dia seguinte. O que sobra de nós quando não há mais a palavra??
- E o que simboliza a alma humana?
sábado, 13 de agosto de 2011
Eu vi o mar
A palavra está morta. Morreu repentina no momento exato em que você beijou minhas mãos e me segurou bem perto. Pela primeira vez não havia a necessidade de palavra alguma: e ela soube. Quando os nossos corações sentiram tamanha paz e tamanha comoção e tamanha sincronia nós atingimos tal nirvana ou qualquer outro nível elevado de alma. E então a palavra desfez-se em poesia - não o poema escrito no papel, mas a Poesia dos instantes de silêncio que separam a última palavra de raiva e a primeira de amor. Naqueles 10 segundos, a palavra estava morta para sempre: nos centímetros que nos distanciavam, na casa, no cosmos, dentro de cada um de nós. E renasceu junto conosco, novamente eterna como nós jamais seremos.
- E o que simboliza a alma humana?
- E o que simboliza a alma humana?
Eu vi o mar
A palavra está morta. Enterrou-se sozinha através dos séculos: definhou conforme os poetas morriam e mais ninguém se dispunha a senti-la ao invés de analisá-la. Ora, e o que é o homem sem a palavra? Um corpo que olha o tempo. A palavra morta, o próprio tempo morto. Mais nada pôde acontecer.
- E o que simboliza a alma humana?
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Quando o caos é tamanho, sabe? Quando existem milhares de pessoas ao teu redor, todas porque sim, todas porque estamos juntos nisso seja lá o que isso for, sabe? Quando para não enlouquecer com o som dos apitos você tem de apitar ainda mais alto?! E então eu apitei. E gritei nossos hinos de fúria. Fúria porque sim, porque estamos juntos nisso seja lá o que isso for e o que isso é; é fúria: e raiva e indiscrição e a eliminação total do desejo de ficar 'assim tudo bem, mais ou menos mas a gente vai levando uma dor aqui um pesar ali'... Fúria porque perdemos a disposição para aceitar: Que você me subjugue. Que você me desrespeite. Que você me esqueça numa viela escura tentando me recompor da sua violência. Do seu descaso assassino. E estávamos ali, gritando que ser mulher é muito mais do que a tua força física sobre o meu corpo: e então eu era mulher. Em toda a minha intensidade. Afirmando ao mundo: sou mulher e isso é merecer. O teu respeito. O teu e o de qualquer um. Cantando num mar de outras mulheres mulheres como eu, ansiando o final feliz, o espaço, o tal do direito ao grito. Então nós gritamos.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
A Festa
De repente, me dei conta: você estava comigo. Apesar dos ventos contraditórios, das dunas e pirâmides que se haviam construído entre nós, apesar dos desastres naturais que insistiam em nos separar, nós dois conseguimos: estávamos ali, no meio daquela sala dentro de um mar de seres humanos completamente alheios à nossa identidade, olhando um par'alma d'outro. Eu jamais poderia olhar ao redor. Porque era você na minha frente. Éramos só nós dois, completamente alheios à presença de um mar de outros seres humanos. Havíamos conseguido. Havíamos conseguido... quebrar a parede que nós mesmos construímos entre nós, sem que qualquer a houvesse desejado. Por isso era um momento mágico. Porque as dunas, as pirâmides, os ventos, os desastres, a parede, o gelo, a barreira, o abismo - todas as metáforas que eu poderia citar para explicar a distância enorme que existia no metro que nos separava - havia cessado. Assim, de repente mais nada fazia sentido: os últimos meses silentes, o choro escondido do resto do mundo, as cartas jamais endereçadas - e também as endereçadas -, tudo: finito. Só sobrou eu, você e a distância de um abraço.
De mais um coração partido:
ABRE ASPAS
- É assim, Jú, doi pra caralho. Aí você chora, chora, chora, e um dia passa...
- Você me promete que passa, Ju?
- ... não... porque eu ainda choro.
FECHA ASPAS
- É assim, Jú, doi pra caralho. Aí você chora, chora, chora, e um dia passa...
- Você me promete que passa, Ju?
- ... não... porque eu ainda choro.
FECHA ASPAS
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
E eu lhe aviso: tu nunca mais entres com esses teus pés sujos no meu templo, pois ele me é sagrado. Fui eu que construí. E tu sujas teus pés com teus pecados infames, com teus trejeitos podres de quem não aceita dividir - e entras no meu piso, ultrapassas os arcos da minha entrada, pisas sem qualquer remorso nos tijolos que eu empilhei - eu sozinha, sim? -, eu empilhei no meu coração e tu me trazes a terra mofada e impura e me levas toda a paz que eu havia conseguido com sofreguidão manter incólume, pura, assim, eu que selei estas minhas paredes com o sangue e o suor que vazaram da minh'alma para que construísse algo que me pertencesse acima de todas as coisas... mas teus pés sujos de areia e poeira espantam minha luz e tu me roubas, me extirpas o mármore etéreo, que foi tudo o que eu consegui para mim enquanto estivestes longe... por isso afasta-te! Eu lhe imploro, já que não posso mais que isso, eu lhe imploro. Nunca mais aparece com o teu egoísmo para macular o pouco de paz que ainda me resta.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Foi assim:
O toque macio de grão por grão, como se o mundo me acarinhasse. A pele. Envolvendo um corpo estendido na areia. Como se o vento fizesse cafuné nos meus cabelos, cantando baixinho que eu ainda não morri. E eu jurei que lutaria com todas as armas: assim, uma esperança absolutamente inédita explodindo de dentro para fora, calafrios, tremeliques, danças na pausa que se fez, dentro de um abraço de concha e areia. E então: desejei. Como nunca antes. Desejei ser muito, muito, muito feliz. Com essa simplicidade toda. Desejei ser feliz e imensa. Desejei ser plena. O gozo, o gosto bom de ser livre. Muito livre e muito plena. Era isso, Deus - ou os orixás, Iemanjá, o Divino, Zeus, Amon-Rá, todas as entidades realmente poderosas desse cosmo ou dessa alma que escreve - me entregando em cada grão de areia um motivo para. Um mol de motivos para. E eu fui.
era tudo o que sobrou daquilo que um dia nós fomos: uma raiva profunda; um rancor amargo; quem sabe um certo ódio latente, prestes a explodir. E uma saudade, daquelas de olhar para fotos-bilhetes-e-outros-sinais-daquilo-que-um-dia-nós-fomos e ficar assim se perguntando o que teríamos sido se, ou elucubrando sobre qual seria seu paradeiro ou se porventura você ainda pensaria em mim nas tardes mais ou menos ensolaradas de setembro- ou qualquer outro mês. -, como aquelas de quando nós fomos. Foi o que sobrou. E por mais que tentasse me livrar dessas últimas ruínas, não havia Adeus completo. Eu ficava listando quais são os 5 passos do luto, aquela baboseira toda de raiva-negação-barganha-depressão-aceitação e percebi que eu alterno entre elas sem nunca chegar na aceitação. Sabe. Acho que é porque você não morreu - nem eu! -, nós só não somos mais. E aí eu às vezes acordo com o gosto do-que-sobrou-daquilo-que-um-dia-nós-fomos na boca, e é um gosto ocre de fracasso, de impotência, sim? E então não posso mais dormir e fico mastigando essa coisa amorfa e podre que é o amor-que-acabou-sem-que-realmente-houvesse-acabado... até o próximo amanhecer.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
,
o mundo é ingrato a todos os desmedidos. A mim, que amo desmedidamente, a ti, que és a indiferença incontrolável. Cuida, rapaz, cuida dos que te protegem, pra que você não fique sozinho, realmente abandonado na sarjeta ou no escuro do quarto. Por mais interessante que você seja, ninguém suporta por muito tempo ter certeza de que é dispensável. Por isso cuida, explicita as coisas que se passam aí dentro, seja mais que intenções: sê ações. Segura na mão do outro, estuda bem quem se propõe a atravessar ao teu lado; não deixe de lado os que te querem bem. Leva isso pra vida, menino, pra não acabar solitário no mundo. Pra não acabar vagando, sem ter pra quem ligar quando você sentir medo do fim. Cuida, cuida, repito, é preciso cuidar e para cuidar é preciso coragem para olhar para as feridas pestilentas de quem se põe ao seu redor. E todos temos feridas abertas, o sangue escorrendo, infecções, cortes, enfim. É preciso perder o nojo da humanidade para encontrar o seu lugar dentro dela. É preciso doar de si: o sangue, um órgão ou apenas um abraço, um mero sorriso cúmplice, um jeito de se afirmar 'aqui contigo, meu irmão'.
domingo, 17 de julho de 2011
Vó,
hoje lhe escrevo porque, como sempre, não pude falar quando foi a hora. E preciso falar, mesmo que você jamais saiba: eu me esqueci, vó, que a morte também vem para os leões e outros Seres Especialmente Fortes Apesar De, eu havia me esquecido mais uma vez, vó, que a morte também vem para você, apesar de você ser uma mulher de garras e dentes e unhas e todas as outras formas de se proteger e se manter firme: afinal, como você poderia se proteger de si mesma, das falhas que podem ocorrer dentro do seu corpo sem que você possa se colocar na frente de hemoglobinas, plaquetas, leucócitos e outras coisas minúsculas que insistem em não funcionar, em sangrar por dentro, em impedir o perfeito funcionamento, etc? Como você poderia entrar dentro do próprio cérebro e impedir mais um acidente vascular prestes a ocorrer, a qualquer momento? E foi ali, vó, dentro daquela sala comum de UTI, vendo você dormindo tranquilamente - apesar de. - que eu pude ter certeza que quero ser uma mulher como a senhora, dessas que acordam e, com um sorriso banguela e os olhos cheios de lágrimas de gratidão porque a sua netinha veio visitá-la, juntam a coragem para humildemente pedir desculpas por ter estragado o meu aniversário - sendo que aquele momento estava sendo o meu maior presente: o teu sorrisinho banguela e a tua mão com eletrodos ou seja lá qual for o nome daqueles fios pendurados monitorando a tua força vital, vital, humana vó! E então agradeço às Forças que regem o universo, que não foi desta vez que te perdi pra sempre, mais uma vez sem nunca ter dito que te amo, te amo te amo, nunca disse porque nunca juntei coragem, nunca porque você sempre foi forte demais: e então você ali com toda a coragem do mundo de lutar contra o medo da morte.
Obrigada, vó, por continuar me ensinando, mesmo sem perceber, na maca com eletrodos e um sorriso sem dentes...
E por favor alguém me traga essa dentadura!!
(Que é pra você morder a morte com toda a tua força. E afugentá-la.)
Obrigada, vó, por continuar me ensinando, mesmo sem perceber, na maca com eletrodos e um sorriso sem dentes...
E por favor alguém me traga essa dentadura!!
(Que é pra você morder a morte com toda a tua força. E afugentá-la.)
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Andrajos
que era esse meu novo desejo de ser outrem: sei lá, fazer coisas erradas e não me importar muito. era esse meu novo jeito de fugir, porque estive e estou precisando de escapes, escapes já que não tem sido fácil ser esse monte de casca e pele e dor orgânica que eu me vejo hoje, diante desse espelho que é uma lasca do infinito e me mostra: indigente. tô sentindo tanta coisa ruim, sabe, diriam que estou me destruindo e acho que sim. é a falta de escapatória. vejo o Mar e o Mar é gigante mas não tenho como me aninhar nele e nele esperar tormentas tempestades e outras tragédias naturais - ou não - passarem. entende?, por isso ser outrem, para sobreviver por um fio de cabelo, irreconhecível ao resto do mundo ou de mim mesma, irreconhecível porque aquele último abraço continua tão dolorido aqui dentro, como um último abraço de adeus quando era 'não, fica por favor' mas não há como ficar, estou precisando de carinho, eu acho... um lugarzinho quente onde possa me aconchegar e que alguém venha e faça cafuné nos meus cabelos, sem me dizer nada, sequer uma palavra. Repito: não preciso de palavras. Porque palavras dissimulam demais e dissimulação já é a minha arte: quando tudo que eu quero é chorar mas rio alto que é pra que todos saibam que está tudo bem mesmo quando não, não está nem um pouco bem, sabe? E esse meu riso estratégico é um jeito de ser outro ser, mas um ser incompleto porque voltar pra casa é perder a persona e perder o brilho ou seja lá qual palavra se quer utilizar nesse momento, eu sou opaca... triste... fraca...
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Querido,
hoje preciso de ajuda. Um ombro, uma mão, um corpo, qualquer coisa que me apoie de qualquer jeito... preciso poder abandonar meu corpo, minha cabeça, minha mão - qualquer coisa - noutro ser pulsante. Não preciso de tua voz nem de tuas palavras porque não preciso ser consolada: preciso de mais que isso. Preciso poder permitir que meu choro inunde rios, rios amazonas tejo nilo prata tigre paraná tamisa... Preciso me deixar do lado de fora da sala, junto com o casaco e os sapatos, e assim descobrir até onde minha força me leva. Preciso que algo muito bom me aconteça, para que eu continue sendo capaz de sonhar: que vai melhorar, que vais mudar, que o dia ainda não acabou. A tua partida é um pouco como a minha partida, me entende? É como se levasse contigo mais um pedaço meu - e tenho perdido tantos... Ao ultrapassar essa porta te perderei para sempre. E, portanto, me perderei também. Como te resgatar?, me responda por favor! Como te resgatar se tudo sempre te leva mais pra longe, tão longe que meus braços são incapazes de te segurar sequer pelos trapos da roupa? E hoje eu sei. Hoje eu sei que não há mais volta. E talvez me faltem forças pra suportar mais uma vez...
domingo, 10 de julho de 2011
and i love you so much, i'm gonna let you kill me
o plano é te arrancar da minha vida aos pouquinhos: como quem esfrega desenfreadamente a pele a fim de se livrar de uma tatuagem. Uma foto que retirei do mural (mais uma vez), achando que retirar fotos de um mural seria suficiente para me livrar de um parasita que há muito se escondeu entre os meus cabelos, n'algum canto escondido da pele, e me tem atormentado os pensamentos, as noites insanas de insônia etc etc etc. Como se não me permitir ler tuas palavras fosse o passo decisivo pra não mais ser atingida; mas sou atingida pelos pensamentos teus, tão perto que sou capaz de sentir tua presença e seguir teus passos. Sem anestesias, com facas pontiagudas corto minha pele, como se uma sangria fosse capaz de estancar o veneno que é bombeado não apenas para os órgãos, tecidos, células etc etc etc mas para mais dentro, mais, mais... tão dentro que às vezes creio que o que me ocorre é morte múltipla, parada cardíaco-cerebral-almática entre outras coisas... então finjo que não e ainda sorrio enquanto rasgo, queimo, quebro, rabisco, escrevo palavras e palavras cheias de raiva, rancor, mágoa...
inócuo.
inócuo.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
, e é por isso que me sento aqui na calçada e converso com você. Quer dizer, falo com você, porque sou uma daquelas mulheres que quando começam a divagar, o outro não tem vez. Mas eu já sei o que você tá pensando: em contar aos seus amigos que uma desesperançosa te interceptou no ponto de ônibus, bem na hora em que você ia abrir uma página de cruzadinha. Odeio pontos de ônibus porque sempre fico me perguntando se todas as pessoas estão indo para o mesmo lugar, se eu estou indo para o mesmo lugar que todas as pessoas... odeio também esses ônibus que dão tantas voltas em todas as ruas cinzas que até me esqueço do meu destino. Um cigarro cairia bem agora, no meio deste discurso. Mas eu não fumo. Se tivesse vontade, fumaria: mas não tenho. Nunca tive. E agradeço sempre por não sentir vontade de algo tão masoquista. Também não bebo muito. Quando tenho vontade, bebo. Mas não tenho vontade muitas vezes. O problema é que quando vem, vem um desejo louco de beber todas: conhaque rum vodca pinga vinho o que me derem na mão. Só sinto vontade de beber quando não suporto mais a realidade. E eu vou te dizer, menino, às vezes a realidade é a-ter-ra-do-ra. Medonha, sim? Sabe quando você vê um filme de terror tão terrível que passa meses - meses! - com medo de olhar através das janelas? A realidade é bem isso que está atrás da janela. E às vezes eu tenho um medo fo-di-do de olhar através. É bem isso mesmo, menino, você vai sentir na própria pele, vai ver tudo com esses teus olhos castanhos. Ai ai ai... a vida costuma brincar de pega-pega com a gente...
O meu ônibus chegou! Você vem?!
Então nós não vamos pro mesmo lugar!
O meu ônibus chegou! Você vem?!
Então nós não vamos pro mesmo lugar!
domingo, 3 de julho de 2011
Que seja doce,
eu implorava aos deuses e às forças motivadoras. Que seja doce e que seja natural, porque afinal quem é que suporta sentir dor por tanto tempo? Que haja luz, meu bem, pra você me olhar nos olhos quando chegar a hora. Uma garrafa de conhaque a tiracolo, que seja lúcido meu amor. O ponto é que ninguém aguenta por muito tempo ser quem se é... ininterruptamente. Que seja liso, plano, que não me corte a pele, meu amor, já que eu já tenho na alma umas porradas que não há descanso que resolva. Clareza, meu querido, é tudo que peço. Aquela clareza que nos faz encarar a vida e escolher. Finalmente, definitivamente... escolher.
eu que sempre fui a bambambam a dona Força com éfe maiúsculo, eu que me achava capaz de brigar com monstros meus e dos outros, com fantasmas meus e dos outros, a dona Vitória com vê maiúsculo, eu que acreditava num deus que não jamais resolveria nada em mim, apenas existiria com suas entidades e energias, eu que era daquelas que atravessam pátios e pátios sozinha mas com o mundo ao redor mas sem traumas, sem traumas meus amigos, eu que era Feliz com éfe minúsculo porque era uma felicidade frágil mas eu que acreditava que era tudo muito bem tudo muito bom sem traumas, o plexo solar em plena iluminação eu que via a solidão como a beleza do universo, a beleza dos séculos em ser minha e de todos que me amassem eu que vinha de prepotência e sucesso em tudo tudo, acabo de depositar francamente todas todas todas as minhas últimas esperanças com e minúsculo no Divino Espírito Santo, justo ele que antes era uma pobre pomba e hoje é o Divino Espírito Santo lê a fita vermelha que eu pendurei no teu mastro por favor me escuta os pedidos e conversa aí com os Santos e com o Deus com dê maiúsculo uma reunião de um minuto não vai comprometer a Eternidade de vocês, me dêem uma força por favor que tá me faltando lugar de onde tirar, nunca mais te chamo de pomba, ou talvez Pomba com pê maiúsculo, lê a minha fitinha Divino, lê pelo amor de Deus?
sábado, 2 de julho de 2011
Fé cega
O amor daquela mulher era mais que amor, era uma fé. Era mais que uma fé, era como se por amor aquela mulher, de tola, fosse capaz de atravessar desertos a nado, de joelhos subindo as escadas para o Olimpo, mergulhando através das eras, crendo crendo crendo... E qual não deve ser sua dor, sua frustração estuporada ao descobrir que não: que o seu Deus é uma farsa?
(...)
ando com uma latência, uma voz que fica me dizendo 'chora. chora. chora!' mas eu não choro. quase não choro. ando com essa coisa me apertando por todos os lados, como quem estrangula e retira o ar e sulfuriza o ambiente e aperta bem na boca do estômago bem ali no plexo solar sabe? ando segurando as pontas malemale, me dizendo 'você é uma força. você é.' mas não sou não sou não sou eu sou um bicho fraco que se construiu como templo, mas não sou não sou. ando com essa coisa, essa coisa amorfa e maldita me agarrando bem no meio da garganta dizendo que a esperança é uma farsa e me dizendo que eu já sabia que seria assim eu já sabia mas não quis aceitar. ando com essa potência, uma coisa que fica me dizendo 'grita. grita. grita!' mas eu não grito.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
O corpo que dança
Um corpo: músculo, ossos, articulações.
Movimento. Alma.
O corpo é um ritmo todo. Uma música toda: veias. Co-ra-ção-ção-ção...
O ranger, o esfregar, o baque surdo.
Um corpo que dança levita, se entrega.
Não somos pouca coisa. Temos uma coluna de ar voando, voando.
Posso esticar, comprimir, torcer.
Um corpo que dança é elástico.
É peso. É pele.
Dois corpos: são.
Os nossos corpos quase-tocam.
Os corpos que dançam são uma coisa só.
Dois membros de um grande corpo.
Estica-me. Repuxo-te. Envolvo-te. Laceia-me.
Fluxo. Abro o corpo pra você passar.
Você me segura. Somos um.
Dois corpos que dançam são.
São.
Movimento. Alma.
O corpo é um ritmo todo. Uma música toda: veias. Co-ra-ção-ção-ção...
O ranger, o esfregar, o baque surdo.
Um corpo que dança levita, se entrega.
Não somos pouca coisa. Temos uma coluna de ar voando, voando.
Posso esticar, comprimir, torcer.
Um corpo que dança é elástico.
É peso. É pele.
Dois corpos: são.
Os nossos corpos quase-tocam.
Os corpos que dançam são uma coisa só.
Dois membros de um grande corpo.
Estica-me. Repuxo-te. Envolvo-te. Laceia-me.
Fluxo. Abro o corpo pra você passar.
Você me segura. Somos um.
Dois corpos que dançam são.
São.
domingo, 26 de junho de 2011
Insânia
Existe uma foto sua pendurada na minha parede. Sorríamos muito. Existe cumplicidade? Será que é verdade que podemos dividir nossa alma com alguém? Será que isso existe ou é só manipulação? Será que existem relacionamentos verdadeiros? Será que é possível sentir algo muito grande por alguém e ver sentido nesse sentimento por muito tempo, sem jamais se indagar sobre sua autenticidade? Será que isso que nós construímos é amor?? Tenho duvidado muito. Tenho duvidado com todas as minhas forças. Será que essa coisa gigante que sinto por você é amor? Em pleno século XXI, estou a tempo de me perguntar: e se isso for algum tipo de loucura, delírio etc? E se eu tiver criado tudo dentro da minha cabeça? E se eu estiver louca?! Mas nós sorríamos juntos na foto pendurada na parede. Me lembro bem desse dia, fui só para te encontrar. Será que em algum momento você viria só para me encontrar? Isso é piração minha. Eu sei que eu sou a doida da história. Por isso não te encontrar mais. Nunca mais. Porque esse amor me mata. Na minha cabeça. Sorríamos muito e era feliz estarmos juntos. Era muito feliz. Hoje você é indiferença. Indiferença, me repito. Indiferença! Minha vida vai ter que tomar outros rumos. Sem você. Sim, devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu. Preciso ver com clareza. Será que o amor é um bicho arisco que nos ataca nas nossas fragilidades e aos poucos nos vai mutilando, decepando, amputando? Será que o amor tem bicado meu fígado todos os dias, esperando ele se recompor?
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Um Manifesto: Pessoalidade, sem poesia.
Você disse que eu mudei por isso? É essa a minha tão enorme mudança?? Eu vou te falar por que é que eu mudei: agora lavo minhas roupas; me sinto sozinha e choro no escuro do quarto; ninguém me espera à noite para perguntar dos meus dias; eu vejo em você a vida que eu tinha e ela não faz mais sentido, entende? Minha vida não faz mais sentido! Todos os anos que eu fui. Fui? Fui o quê?! Morreu. Agora se não há comida passo fome e meu dinheiro não é infinito; fui furtada dentro de casa e minha mãe nem ficou sabendo, não havia quem me prometesse que vai ficar tudo bem; sinto vontades de chorar e ninguém nem sabe; perdi um amor verdadeiro porque, com todas as palavras, sou fraca. Perdi uma grande amizade por opção, mas me arrependo todos os dias, me machuco toda vez e não há como voltar atrás. Moro a 120km de onde eu moro. Não sei a que lugar pertenço. Ir aos lugares de passado me dá a maior tristeza que já experimentei. Ainda não sei o que significa voltar. Eu morro de medo, mas não posso simplesmente me trancafiar. Estou sozinha e aprendendo a ser. - e vejo tudo incrível! - Sem me martirizar, acho que uma bobagem dessas não significa nada.
Imperativo
Sou eu quem tem que ir embora. Não há imperativos. Eu saio. Eu saio. Aprontarei essas malas, não quero te encontrar. Dói demais pra mim. Me digo 'otária, estúpida' e o mundo ri. O mundo ri, dizendo 'criança. fraca' e fraca sou. Preciso ir embora. Dói demais. Eu vou lá entender os motivos. Acho que isso é amor, mas que droga de amor é esse?? Não quero te ver nunca mais. Me machuca. Sou eu quem tem que partir. Eu vou. Eu vou. Tenho sentido tanto medo de perder. Vou perder tudo. Mas você me dói. Terei de ir. Sem imperativos, você pode ficar. Eu parto. Minha alma se parte em mil. O teu pedaço ficou inteiro. Não há outro jeito. Terei de abandonar. Tudo. Terei de dizer adeus. E esperar essa tristeza que é te ver ir embora. Não vejo outra saída. Não há
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Mutante
- ... e aí ele me disse: "Nossa, como você tá mudada!"
- e isso não é bom??
- não! claro que não... os que me amavam amavam a pessoa que eu fui, e não quem eu sou. Me entende? eles não amam quem eu sou.
- e daí??
- daí que eu tenho sentido tanto medo de perder, tanto, tanto...
- mas garota, você está crescendo
- e crescer é perder? as coisas que eu construí? as pessoas que eu abracei forte, tão forte que era pra ser um coração só?
- crescer talvez seja perder.
- é tão difícil... eu tinha algo a que me segurar. e aos poucos não há mais. tenho me sentido tão sozinha. às vezes no banho eu deixo a água escorrendo, sabe a água escorrendo quente por todos os poros? eu queria poder esfregar, esfregar tudo, passar sabonete em tudo o que eu vivi, e o que eu vivi não foi pouca coisa, eu queria poder usar uma bucha com força na minha alma e merecer novamente um amor que já tive. tenho me sentido tão perdida, sabe? perdida no mundo.
- mas você merece ser amada! talvez esteja se tornando uma mulher e isso é merecer amor.
- já viveu isso? se olhar no espelho e, com alguma repulsa, afirmar 'mas isso aí não sou eu!' e então terrivelmente se perguntar 'mas o que é que eu sou?' e não há resposta... já viveu??
- talvez todos vivam um dia.
- esse bicho triste, sem cor, eu não sou esse bicho medroso que faz escarcéu da própria dor. eu sou uma mulher que sofre em silêncio, e sempre fui. sempre, sempre. eu não quero ser esse bicho rancoroso que tenho sido. eu não tenho nada pra me segurar de pé.
- mulheres aprendem a se apoiar nas próprias patas como um bicho que quase voa!
- eu não quase vôo... só quase caio. quando o sol queima a pele de modo desigual, sabe como é? é assim que me sinto, só que na alma.
- e isso não é bom??
- não! claro que não... os que me amavam amavam a pessoa que eu fui, e não quem eu sou. Me entende? eles não amam quem eu sou.
- e daí??
- daí que eu tenho sentido tanto medo de perder, tanto, tanto...
- mas garota, você está crescendo
- e crescer é perder? as coisas que eu construí? as pessoas que eu abracei forte, tão forte que era pra ser um coração só?
- crescer talvez seja perder.
- é tão difícil... eu tinha algo a que me segurar. e aos poucos não há mais. tenho me sentido tão sozinha. às vezes no banho eu deixo a água escorrendo, sabe a água escorrendo quente por todos os poros? eu queria poder esfregar, esfregar tudo, passar sabonete em tudo o que eu vivi, e o que eu vivi não foi pouca coisa, eu queria poder usar uma bucha com força na minha alma e merecer novamente um amor que já tive. tenho me sentido tão perdida, sabe? perdida no mundo.
- mas você merece ser amada! talvez esteja se tornando uma mulher e isso é merecer amor.
- já viveu isso? se olhar no espelho e, com alguma repulsa, afirmar 'mas isso aí não sou eu!' e então terrivelmente se perguntar 'mas o que é que eu sou?' e não há resposta... já viveu??
- talvez todos vivam um dia.
- esse bicho triste, sem cor, eu não sou esse bicho medroso que faz escarcéu da própria dor. eu sou uma mulher que sofre em silêncio, e sempre fui. sempre, sempre. eu não quero ser esse bicho rancoroso que tenho sido. eu não tenho nada pra me segurar de pé.
- mulheres aprendem a se apoiar nas próprias patas como um bicho que quase voa!
- eu não quase vôo... só quase caio. quando o sol queima a pele de modo desigual, sabe como é? é assim que me sinto, só que na alma.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Me ajuda a ver com clareza. Tenho pedido insistentemente. Me falta sanidade às vezes, me falta abrir os olhos para aceitar o que nos ocorre. Preciso de ajuda para olhar. Não há luz dentro desse espaço; não há caminhos outros e nem 'o' caminho. Preciso da tua mão me segurando de pé, estou com medo. Me ajuda a enxergar. Pelo amor de Deus, lhe imploro. Me ajuda. Me salva dessas faltas. Desespero? Preciso encontrar alguma resposta. A batalha é árdua. Me ajuda. Me empresta o teu ombro pra que eu possa me dissolver. Eu preciso tanto, tanto... Tem me faltado luz luz luz. Tem me faltado muito. Tenho sentido muito medo. Tenho sentido tantas crises.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Fiquei
Fiquei pensando e repensando a ausência tua. Fiquei pensando e repensando como certas coisas não suprem a falta amputada de outras. Fiquei pensando coisas das quais tenho medo de falar. Enquanto caminhava fiquei pensando que gostaria de ser livre, livre. O bicho mais livre do universo... Mas então concluí que estar muito livre é estar muito só. E de solidão já me bastam essas tardes em que caminho sob o sol divagando, divagando...
Insônia I
(Um homem, uma mulher e uma vela)
MULHER - O que a gente faz?
HOMEM - Quando?
MULHER - Quando essa vela apagar? O que a gente faz?
HOMEM - A gente se entrega: primeiro um ao outro; depois, juntos, à escuridão. E então poderemos fechar os olhos e dormir.
MULHER - Mas eu tenho medo do escuro...
HOMEM - Mesmo se eu te segurar tão perto que você vai estar quase dentro de mim? Mesmo enquanto eu ficar te contando as minhas historinhas bobas bem baixinho, até você pegar no sono?
MULHER - O problema é que eu nunca pego no sono.
(Apagam a vela)
MULHER - O que a gente faz?
HOMEM - Quando?
MULHER - Quando essa vela apagar? O que a gente faz?
HOMEM - A gente se entrega: primeiro um ao outro; depois, juntos, à escuridão. E então poderemos fechar os olhos e dormir.
MULHER - Mas eu tenho medo do escuro...
HOMEM - Mesmo se eu te segurar tão perto que você vai estar quase dentro de mim? Mesmo enquanto eu ficar te contando as minhas historinhas bobas bem baixinho, até você pegar no sono?
MULHER - O problema é que eu nunca pego no sono.
(Apagam a vela)
quinta-feira, 9 de junho de 2011
As Cartas
(deve ser lido em tom de sussurro)
As cartas que eu ainda não escrevi estão todas descritas no meu corpo. As minhas cartas se escrevem conforme passeio pelas ruas, conforme eu silenciosamente percorro comprimentos, cumpro ordens, compro papel e tinta; as minhas cartas estão escritas na minha pele: cada curva é uma vírgula que ainda não virou pausa. Cada movimento é uma palavra: dissuado; persuado; me esquivo, rodeio, estico, rodopio. Minhas cartas são escritas conforme te observo os olhos, conforme sinto medo, confiança, saudade... As cartas de adeus se escrevem quando teus olhos não mais, e então são todas feitas de água, a água do corpo do meu corpo sem o corpo teu.
As cartas que eu ainda não escrevi estão todas descritas no meu corpo. As minhas cartas se escrevem conforme passeio pelas ruas, conforme eu silenciosamente percorro comprimentos, cumpro ordens, compro papel e tinta; as minhas cartas estão escritas na minha pele: cada curva é uma vírgula que ainda não virou pausa. Cada movimento é uma palavra: dissuado; persuado; me esquivo, rodeio, estico, rodopio. Minhas cartas são escritas conforme te observo os olhos, conforme sinto medo, confiança, saudade... As cartas de adeus se escrevem quando teus olhos não mais, e então são todas feitas de água, a água do corpo do meu corpo sem o corpo teu.
domingo, 5 de junho de 2011
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