sexta-feira, 15 de julho de 2011

Andrajos

que era esse meu novo desejo de ser outrem: sei lá, fazer coisas erradas e não me importar muito. era esse meu novo jeito de fugir, porque estive e estou precisando de escapes, escapes já que não tem sido fácil ser esse monte de casca e pele e dor orgânica que eu me vejo hoje, diante desse espelho que é uma lasca do infinito e me mostra: indigente. tô sentindo tanta coisa ruim, sabe, diriam que estou me destruindo e acho que sim. é a falta de escapatória. vejo o Mar e o Mar é gigante mas não tenho como me aninhar nele e nele esperar tormentas tempestades e outras tragédias naturais - ou não - passarem. entende?, por isso ser outrem, para sobreviver por um fio de cabelo, irreconhecível ao resto do mundo ou de mim mesma, irreconhecível porque aquele último abraço continua tão dolorido aqui dentro, como um último abraço de adeus quando era 'não, fica por favor' mas não há como ficar, estou precisando de carinho, eu acho... um lugarzinho quente onde possa me aconchegar e que alguém venha e faça cafuné nos meus cabelos, sem me dizer nada, sequer uma palavra. Repito: não preciso de palavras. Porque palavras dissimulam demais e dissimulação já é a minha arte: quando tudo que eu quero é chorar mas rio alto que é pra que todos saibam que está tudo bem mesmo quando não, não está nem um pouco bem, sabe? E esse meu riso estratégico é um jeito de ser outro ser, mas um ser incompleto porque voltar pra casa é perder a persona e perder o brilho ou seja lá qual palavra se quer utilizar nesse momento, eu sou opaca... triste... fraca...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Querido,

hoje preciso de ajuda. Um ombro, uma mão, um corpo, qualquer coisa que me apoie de qualquer jeito... preciso poder abandonar meu corpo, minha cabeça, minha mão - qualquer coisa - noutro ser pulsante. Não preciso de tua voz nem de tuas palavras porque não preciso ser consolada: preciso de mais que isso. Preciso poder permitir que meu choro inunde rios, rios amazonas tejo nilo prata tigre paraná tamisa...  Preciso me deixar do lado de fora da sala, junto com o casaco e os sapatos, e assim descobrir até onde minha força me leva. Preciso que algo muito bom me aconteça, para que eu continue sendo capaz de sonhar: que vai melhorar, que vais mudar, que o dia ainda não acabou. A tua partida é um pouco como a minha partida, me entende? É como se levasse contigo mais um pedaço meu - e tenho perdido tantos... Ao ultrapassar essa porta te perderei para sempre. E, portanto, me perderei também. Como te resgatar?, me responda por favor! Como te resgatar se tudo sempre te leva mais pra longe, tão longe que meus braços são incapazes de te segurar sequer pelos trapos da roupa? E hoje eu sei. Hoje eu sei que não há mais volta. E talvez me faltem forças pra suportar mais uma vez...

domingo, 10 de julho de 2011

and i love you so much, i'm gonna let you kill me

o plano é te arrancar da minha vida aos pouquinhos: como quem esfrega desenfreadamente a pele a fim de se livrar de uma tatuagem. Uma foto que retirei do mural (mais uma vez), achando que retirar fotos de um mural seria suficiente para me livrar de um parasita que há muito se escondeu entre os meus cabelos, n'algum canto escondido da pele, e me tem atormentado os pensamentos, as noites insanas de insônia etc etc etc. Como se não me permitir ler tuas palavras fosse o passo decisivo pra não mais ser atingida; mas sou atingida pelos pensamentos teus, tão perto que sou capaz de sentir tua presença e seguir teus passos. Sem anestesias, com facas pontiagudas corto minha pele, como se uma sangria fosse capaz de estancar o veneno que é bombeado não apenas para os órgãos, tecidos, células etc etc etc mas para mais dentro, mais, mais... tão dentro que às vezes creio que o que me ocorre é morte múltipla, parada cardíaco-cerebral-almática entre outras coisas... então finjo que não e ainda sorrio enquanto rasgo, queimo, quebro, rabisco, escrevo palavras e palavras cheias de raiva, rancor, mágoa...

inócuo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

, e é por isso que me sento aqui na calçada e converso com você. Quer dizer, falo com você, porque sou uma daquelas mulheres que quando começam a divagar, o outro não tem vez. Mas eu já sei o que você tá pensando: em contar aos seus amigos que uma desesperançosa te interceptou no ponto de ônibus, bem na hora em que você ia abrir uma página de cruzadinha. Odeio pontos de ônibus porque sempre fico me perguntando se todas as pessoas estão indo para o mesmo lugar, se eu estou indo para o mesmo lugar que todas as pessoas... odeio também esses ônibus que dão tantas voltas em todas as ruas cinzas que até me esqueço do meu destino. Um cigarro cairia bem agora, no meio deste discurso. Mas eu não fumo. Se tivesse vontade, fumaria: mas não tenho. Nunca tive. E agradeço sempre por não sentir vontade de algo tão masoquista. Também não bebo muito. Quando tenho vontade, bebo. Mas não tenho vontade muitas vezes. O problema é que quando vem, vem um desejo louco de beber todas: conhaque rum vodca pinga vinho o que me derem na mão. Só sinto vontade de beber quando não suporto mais a realidade. E eu vou te dizer, menino, às vezes a realidade é a-ter-ra-do-ra.  Medonha, sim? Sabe quando você vê um filme de terror tão terrível que passa meses - meses! - com medo de olhar através das janelas? A realidade é bem isso que está atrás da janela. E às vezes eu tenho um medo fo-di-do de olhar através. É bem isso mesmo, menino, você vai sentir na própria pele, vai ver tudo com esses teus olhos castanhos. Ai ai ai... a vida costuma brincar de pega-pega com a gente...
O meu ônibus chegou! Você vem?!

Então nós não vamos pro mesmo lugar!

domingo, 3 de julho de 2011

Que seja doce,

eu implorava aos deuses e às forças motivadoras. Que seja doce e que seja natural, porque afinal quem é que suporta sentir dor por tanto tempo? Que haja luz, meu bem, pra você me olhar nos olhos quando chegar a hora. Uma garrafa de conhaque a tiracolo, que seja lúcido meu amor. O ponto é que ninguém aguenta por muito tempo ser quem se é... ininterruptamente. Que seja liso, plano, que não me corte a pele, meu amor, já que eu já tenho na alma umas porradas que não há descanso que resolva. Clareza, meu querido, é tudo que peço. Aquela clareza que nos faz encarar a vida e escolher. Finalmente, definitivamente... escolher.
eu que sempre fui a bambambam a dona Força com éfe maiúsculo, eu que me achava capaz de brigar com monstros meus e dos outros, com fantasmas meus e dos outros, a dona Vitória com vê maiúsculo, eu que acreditava num deus que não jamais resolveria nada em mim, apenas existiria com suas entidades e energias, eu que era daquelas que atravessam pátios e pátios sozinha mas com o mundo ao redor mas sem traumas, sem traumas meus amigos, eu que era Feliz com éfe minúsculo porque era uma felicidade frágil mas eu que acreditava que era tudo muito bem tudo muito bom sem traumas, o plexo solar em plena iluminação eu que via a solidão como a beleza do universo, a beleza dos séculos em ser minha e de todos que me amassem eu que vinha de prepotência e sucesso em tudo tudo, acabo de depositar francamente todas todas todas as minhas últimas esperanças com e minúsculo no Divino Espírito Santo, justo ele que antes era uma pobre pomba e hoje é o Divino Espírito Santo lê a fita vermelha que eu pendurei no teu mastro por favor me escuta os pedidos e conversa aí com os Santos e com o Deus com dê maiúsculo uma reunião de um minuto não vai comprometer a Eternidade de vocês, me dêem uma força por favor que tá me faltando lugar de onde tirar, nunca mais te chamo de pomba, ou talvez Pomba com pê maiúsculo, lê a minha fitinha Divino, lê pelo amor de Deus?

sábado, 2 de julho de 2011

Fé cega

O amor daquela mulher era mais que amor, era uma fé. Era mais que uma fé, era como se por amor aquela mulher, de tola, fosse capaz de atravessar desertos a nado, de joelhos subindo as escadas para o Olimpo, mergulhando através das eras, crendo crendo crendo... E qual não deve ser sua dor, sua frustração estuporada ao descobrir que não: que o seu Deus é uma farsa?

(...)

ando com uma latência, uma voz que fica me dizendo 'chora. chora. chora!' mas eu não choro. quase não choro. ando com essa coisa me apertando por todos os lados, como quem estrangula e retira o ar e sulfuriza o ambiente e aperta bem na boca do estômago bem ali no plexo solar sabe? ando segurando as pontas malemale, me dizendo 'você é uma força. você é.' mas não sou não sou não sou eu sou um bicho fraco que se construiu como templo, mas não sou não sou. ando com essa coisa, essa coisa amorfa e maldita me agarrando bem no meio da garganta dizendo que a esperança é uma farsa e me dizendo que eu já sabia que seria assim eu já sabia mas não quis aceitar. ando com essa potência, uma coisa que fica me dizendo 'grita. grita. grita!' mas eu não grito.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O corpo que dança

Um corpo: músculo, ossos, articulações.
Movimento. Alma.
O corpo é um ritmo todo. Uma música toda: veias. Co-ra-ção-ção-ção...
O ranger, o esfregar, o baque surdo.
Um corpo que dança levita, se entrega.
Não somos pouca coisa. Temos uma coluna de ar voando, voando.
Posso esticar, comprimir, torcer.
Um corpo que dança é elástico.
É peso. É pele.
Dois corpos: são.
Os nossos corpos quase-tocam.
Os corpos que dançam são uma coisa só.
Dois membros de um grande corpo.
Estica-me. Repuxo-te. Envolvo-te. Laceia-me.
Fluxo. Abro o corpo pra você passar.
Você me segura. Somos um.
Dois corpos que dançam são.
São.

domingo, 26 de junho de 2011

Insânia

Existe uma foto sua pendurada na minha parede. Sorríamos muito. Existe cumplicidade? Será que é verdade que podemos dividir nossa alma com alguém? Será que isso existe ou é só manipulação? Será que existem relacionamentos verdadeiros? Será que é possível sentir algo muito grande por alguém e ver sentido nesse sentimento por muito tempo, sem jamais se indagar sobre sua autenticidade? Será que isso que nós construímos é amor?? Tenho duvidado muito. Tenho duvidado com todas as minhas forças. Será que essa coisa gigante que sinto por você é amor? Em pleno século XXI, estou a tempo de me perguntar: e se isso for algum tipo de loucura, delírio etc? E se eu tiver criado tudo dentro da minha cabeça? E se eu estiver louca?! Mas nós sorríamos juntos na foto pendurada na parede. Me lembro bem desse dia, fui só para te encontrar. Será que em algum momento você viria só para me encontrar? Isso é piração minha. Eu sei que eu sou a doida da história. Por isso não te encontrar mais. Nunca mais. Porque esse amor me mata. Na minha cabeça. Sorríamos muito e era feliz estarmos juntos. Era muito feliz. Hoje você é indiferença. Indiferença, me repito. Indiferença! Minha vida vai ter que tomar outros rumos. Sem você.  Sim, devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu. Preciso ver com clareza. Será que o amor é um bicho arisco que nos ataca nas nossas fragilidades e aos poucos nos vai mutilando, decepando, amputando? Será que o amor tem bicado meu fígado todos os dias, esperando ele se recompor?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Um Manifesto: Pessoalidade, sem poesia.

Você disse que eu mudei por isso? É essa a minha tão enorme mudança?? Eu vou te falar por que é que eu mudei: agora lavo minhas roupas; me sinto sozinha e choro no escuro do quarto; ninguém me espera à noite para perguntar dos meus dias; eu vejo em você a vida que eu tinha e ela não faz mais sentido, entende? Minha vida não faz mais sentido! Todos os anos que eu fui. Fui? Fui o quê?! Morreu. Agora se não há comida passo fome e meu dinheiro não é infinito; fui furtada dentro de casa e minha mãe nem ficou sabendo, não havia quem me prometesse que vai ficar tudo bem; sinto vontades de chorar e ninguém nem sabe; perdi um amor verdadeiro porque, com todas as palavras, sou fraca. Perdi uma grande amizade por opção, mas me arrependo todos os dias, me machuco toda vez e não há como voltar atrás. Moro a 120km de onde eu moro. Não sei a que lugar pertenço. Ir aos lugares de passado me dá a maior tristeza que já experimentei. Ainda não sei o que significa voltar. Eu morro de medo, mas não posso simplesmente me trancafiar. Estou sozinha e aprendendo a ser. - e vejo tudo incrível! - Sem me martirizar, acho que uma bobagem dessas não significa nada.

Imperativo

Sou eu quem tem que ir embora. Não há imperativos. Eu saio. Eu saio. Aprontarei essas malas, não quero te encontrar. Dói demais pra mim. Me digo 'otária, estúpida' e o mundo ri. O mundo ri, dizendo 'criança. fraca' e fraca sou. Preciso ir embora. Dói demais. Eu vou lá entender os motivos. Acho que isso é amor, mas que droga de amor é esse?? Não quero te ver nunca mais. Me machuca. Sou eu quem tem que partir. Eu vou. Eu vou. Tenho sentido tanto medo de perder. Vou perder tudo. Mas você me dói. Terei de ir. Sem imperativos, você pode ficar. Eu parto. Minha alma se parte em mil. O teu pedaço ficou inteiro. Não há outro jeito. Terei de abandonar. Tudo. Terei de dizer adeus. E esperar essa tristeza que é te ver ir embora. Não vejo outra saída. Não há

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Mutante

- ... e aí ele me disse: "Nossa, como você tá mudada!"
- e isso não é bom??
- não! claro que não... os que me amavam amavam a pessoa que eu fui, e não quem eu sou. Me entende? eles não amam quem eu sou.
- e daí??
- daí que eu tenho sentido tanto medo de perder, tanto, tanto...
- mas garota, você está crescendo
- e crescer é perder? as coisas que eu construí? as pessoas que eu abracei forte, tão forte que era pra ser um coração só?
- crescer talvez seja perder.
- é tão difícil... eu tinha algo a que me segurar. e aos poucos não há mais. tenho me sentido tão sozinha. às vezes no banho eu deixo a água escorrendo, sabe a água escorrendo quente por todos os poros? eu queria poder esfregar, esfregar tudo, passar sabonete em tudo o que eu vivi, e o que eu vivi não foi pouca coisa,  eu queria poder usar uma bucha com força na minha alma e merecer novamente um amor que já tive. tenho me sentido tão perdida, sabe? perdida no mundo.
- mas você merece ser amada! talvez esteja se tornando uma mulher e isso é merecer amor.
- já viveu isso? se olhar no espelho e, com alguma repulsa, afirmar 'mas isso aí não sou eu!' e então terrivelmente se perguntar 'mas o que é que eu sou?' e não há resposta... já viveu??
- talvez todos vivam um dia.
- esse bicho triste, sem cor, eu não sou esse bicho medroso que faz escarcéu da própria dor. eu sou uma mulher que sofre em silêncio, e sempre fui. sempre, sempre. eu não quero ser esse bicho rancoroso que tenho sido. eu não tenho nada pra me segurar de pé.
- mulheres aprendem a se apoiar nas próprias patas como um bicho que quase voa!
- eu não quase vôo... só quase caio. quando o sol queima a pele de modo desigual, sabe como é? é assim que me sinto, só que na alma.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Me ajuda a ver com clareza. Tenho pedido insistentemente. Me falta sanidade às vezes, me falta abrir os olhos para aceitar o que nos ocorre. Preciso de ajuda para olhar. Não há luz dentro desse espaço; não há caminhos outros e nem 'o' caminho. Preciso da tua mão me segurando de pé, estou com medo. Me ajuda a enxergar. Pelo amor de Deus, lhe imploro. Me ajuda. Me salva dessas faltas. Desespero? Preciso encontrar alguma resposta. A batalha é árdua. Me ajuda. Me empresta o teu ombro pra que eu possa me dissolver. Eu preciso tanto, tanto... Tem me faltado luz luz luz. Tem me faltado muito. Tenho sentido muito medo. Tenho sentido tantas crises.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fiquei

Fiquei pensando e repensando a ausência tua. Fiquei pensando e repensando como certas coisas não suprem a falta amputada de outras. Fiquei pensando coisas das quais tenho medo de falar. Enquanto caminhava fiquei pensando que gostaria de ser livre, livre. O bicho mais livre do universo... Mas então concluí que estar muito livre é estar muito só. E de solidão já me bastam essas tardes em que caminho sob o sol divagando, divagando...

Insônia I

(Um homem, uma mulher e uma vela)

MULHER - O que a gente faz?
HOMEM - Quando?
MULHER - Quando essa vela apagar? O que a gente faz?
HOMEM - A gente se entrega: primeiro um ao outro; depois, juntos, à escuridão. E então poderemos fechar os olhos e dormir.
MULHER - Mas eu tenho medo do escuro...
HOMEM - Mesmo se eu te segurar tão perto que você vai estar quase dentro de mim? Mesmo enquanto eu ficar te contando as minhas historinhas bobas bem baixinho, até você pegar no sono?
MULHER - O problema é que eu nunca pego no sono.

(Apagam a vela)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

As Cartas

(deve ser lido em tom de sussurro)

As cartas que eu ainda não escrevi estão todas descritas no meu corpo. As minhas cartas se escrevem conforme  passeio pelas ruas, conforme eu silenciosamente percorro comprimentos, cumpro ordens, compro papel e tinta; as minhas cartas estão escritas na minha pele: cada curva é uma vírgula que ainda não virou pausa. Cada movimento é uma palavra: dissuado; persuado; me esquivo, rodeio, estico, rodopio. Minhas cartas são escritas conforme te observo os olhos, conforme sinto medo, confiança, saudade... As cartas de adeus se escrevem quando teus olhos não mais, e então são todas feitas de água, a água do corpo do meu corpo sem o corpo teu.

domingo, 5 de junho de 2011

A rosa no copo verde:
não se dissolveu durante o fim de semana, mas ainda não abriu as pétalas...
(queria tanto ver a segunda cor escondida lá dentro!).
Acho que esqueci de deixar a janela aberta... Quem sobrevive sem ar?
Ando como um gato que perdeu o rabo: sem coragem.





Sem equilíbrio.

terça-feira, 31 de maio de 2011

A revolta de Ofélia

Me abandona. Pelo amor de Deus saia da minha cabeça! Minha mente é altamente verborrágica: e a todo momento há você. Você compreende minha dor? Que pena que trata-se de Hamlet! Mas eu não sou Hamlet!
Por que é que eu não me revolto? Por que é que eu não resolvo te abandonar ao léo, esquecer desses meus gestos melífluos, indelicadamente amorosos? Por que é que eu opto, dia após dia, por me afogar dentro dessa loucura, noites sem dormir chorando, manhãs em outros lugares, tardes tristes... Porque a fundo eu sou você, me entende? Ofélia é Hamlet. E você sou eu, Hamlet é Ofélia. Entende minha insanidade? Se eu pudesse te matava com adagas, afogado debaixo das minhas cortinas. E tudo isso dentro de mim. Porque estou me afogando. E quando você ficar sabendo já vai ser tarde demais... Me ouve, Hamlet? Das profundezas dos seus sonhos e das suas dores, do seu eumismo, será que você é capaz de me ouvir gritando debaixo d'água?! Será que é capaz de sair de si pra me escutar morrendo?

Minhas adagas a postos: ou eu ou você.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Por saudade num sussurro:

farei silêncio. muito silêncio. a partir de hoje serei imortal. quero dançar em silêncio. quero entregar minh'alma nas mãos de quem cuide com zelo. eu preciso de cuidado, me entende? eu também sou fraca. perdoa-me por desistir tão cedo. não que o fim tenha chegado ao seu ápice. existe muita coisa nas tuas mãos: agora não posso mais retornar sozinha: venha me buscar. me entendeu? venha me buscar, eu repito. "Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado." eu não sei te odiar. nunca soube te amar também. Mas venha me buscar. já pensei, já pensei com carinho, e concluí:

Chama sem medo

Fósforos;
Faísca: rascar dos corpos.
Fogo, calor...

Me embrulha dentro dos seus sonhos e promete que não me esquece, que a morte não dói, que nem todos estão loucos. Esquenta meus pés, já que as meias abandonaram, o sangue me abandonou, a esperança já não há muito. Saiba que isso que eu sou é tão pouco, tão pouco, mas sou e isso é por você. Acende a lareira na sala, acende a fogueira do lado de dentro do peito, chama sem medo... me chama sem medo de ouvir que não.

domingo, 22 de maio de 2011

... eu já chorei esperneei gritei acendi as luzes escrevi textos e textos divagando sobre amorte, amorte de tudo, veja bem amorte do amor quem sabe, já arranquei as pétalas bemequer malmequer deu malmequer e de cada pétala jorrava sangue sangue e um vento vento que cobre a espinha de um medo um medo de fazer as escolhas erradas de optar por ser mais triste ainda já chorei esperneei gritei olhei pros teus movimentos só pra ter certeza olhei nos teus olhos pra me provocar já tentei de tudo apaguei as luzes e chorei na ausência que se fez e que se faz mas a cada instante percebo que sou viciada que sou eu que preciso de você mas não posso porque não é assim que deve ser o amor não pode ser só isso eu me respondo com os olhos em brasa eu me digo isso não é amor isso não é amor isso não é amor sua otária eu me digo, me chamo de otária e choro mais forte ainda pra ver se ainda me perdoo eu já chorei esperneei gritei...

sábado, 14 de maio de 2011

Quase Nada

Por hora, deixemos o cachorro latir. Deixemo-lo latir madrugada adentro. Finjamos que nada aconteceu, além de uma madrugada... e um cachorro. Por favor, ignoremos todo o resto, os fantasmas, os desejos, o passado, essa voz incessante que suplica, suplica por companhia, suplica por perdão, mas não ouve resposta alguma. Ignoremos o desespero de alguns que não encontram saída, que não sabem a quê estão no mundo. Ignoremos! Viremos o rosto mais de lado, como quem dorme desavisado ou, desavisadamente, lê um livro. Resmunguemos alguma coisa, nos cubramos um pouco mais com nossos cobertores e durmamos, alegando que a única dificuldade encontrada foi a de esquecer o cachorro latindo.

terça-feira, 10 de maio de 2011

domingo, 8 de maio de 2011

Hoje acordei lembrando de te conhecer: você tinha os olhos infantis que sentem uma curiosidade, prontos para a afeição. Talvez jamais me esqueça daqueles teus olhos de quando te conhecia... Eram os mais belos porque estavam disponíveis. Eram lindos porque não vinham fantasiados de outra coisa. Às vezes crescer é uma desgraça: maturidade (?) vem com ceticismo, com essa ideia de que podemos estar acima, acima, acima do mundo! Você treinou teus olhares na frente do espelho, e tudo é dissimulado, tudo é triste, tudo é perfeito. Que pena!...

... e que saudade de você.

sábado, 7 de maio de 2011

Toda a força é meramente ilustrativa

é que eu não consigo, simplesmente não consigo me acalmar. Já tentei toda forma apaziguadora, lavar louça roer as unhas pintar as unhas sair pra correr chocolate miojo yoga mantras egípcios escrever textos e textos pedindo ajuda, pedindo desculpa, pedindo carinho... Você vai me ver dando tanta risada da vida, de todos que me pedem pedem pedem e eu dou dou dou, mas toda essa força é uma casquinha mista de sabor falso, porque por dentro eu quero tanto voltar atrás, desfazer os passos que já fiz... Eu quero tanto desistir de tudo, quero descansar de tudo, de mim, de você, quero chorar, quero pedir arrego. Mas não posso.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Conclusão:

Hoje olhei para a vida e concluí: ainda vou passar por muitas chuvas.

Do eterno esquecimento

A saudade vai passar e nada aconteceu, então.
Resolvi me desfazer de tudo o que não me faz bem e não pense que é uma metáfora, porque não é. Minto, é claro que é uma metáfora: nem tudo é livrável ou quem sabe pessoas não possam ser jogadas fora e nem é o meu propósito. Abrirei uma lata de lixo e lá dentro cartas meias livros bodes expiatórios 'e se's 'por enquanto's esperas esperas esperanças vagas tudo em vão fruta estragada música triste tudo que entulha entulha entulha e a gente pensa 'mas o que é que eu vou fazer com isso?' e se for uma pessoa não te atirarei no moedor de papel porque pessoas não são papel pessoas têm alma pessoas têm cor e luz. Mas não vou te segurar do meu lado como quem força o amor, vou te soltar de mim porque nenhum vício faz bem e então vou querer saber o que é que tem de tão surpreendente no futuro e quem sabe não seja nada e eu não vou me entristecer, vou te transformar em samba e luz... E olhar pra frente, sambando, sambando...