terça-feira, 8 de junho de 2010

Promessa de vida

Minhas palavras não cabem nas linhas que você desenhou: são frias e duras, como as suas mãos. As minhas palavras não são tão fixas! São olhos cujas pupilas hora dilatam, hora contraem. Às vezes acordo triste, silenciosa, falo baixinho pra ninguém ouvir... Outras o mundo grita e grito eu, alto, alto, que te amo! Que quero diferente! Que estou perdida! Que sou uma bagunça...

Fé de fênix

Há em mim feixes de esperança, que por vezes fenecem, fundidas no coser dos dias, desse cotidiano fatídico de dias sem sol nem sombra, sem cor nem crença. Os fatos são feios, os mundo é feio e falso nesses dias, e não há felicidade a oferecer. Feito um fraco amor, farto do cansaço, da monotonia, acaba antes do ocaso, sem dar chance ao feitiço das cores...  Porém, eu sei que o fado da fé é cíclico: fora ao dissabor da vida! E fecunda-se, no túmulo de concreto, o bojo do meu coração, fazendo espetáculo fascinante: floresce em minh'alma, e o favo do mel, e o jorro da água, e o brilho do bicho novo, a desejar tudo que vem a seguir: É a fênix da fé, brilhante e fugaz, sem memória e sem desprezo.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Do medo, da grande tristeza do mundo

A minha tristeza não é minha.
A minha tristeza é toda a tristeza do mundo.
A minha tristeza é
o medo da morte,
de existir, apenas, sem viver o suficiente,
de sentir dor, de todas as dores que existem.
De acomodar na incompletude, quando não se pode ser incompleto
de acomodar o tempo todo e continuar
com fome, no vazio, com preguiça de ir buscar o cobertor
sem amparo, sem aparar as sobras.
A minha tristeza é quando sou incapaz de olhar nos olhos
e assumir que está errado, que preciso mudar,
assumir que morreu e eu continuo viva,
assumir que estou me escondendo...

sábado, 5 de junho de 2010

Antigamente aqui era o mar.

O meu peito foi um cais, onde as ondas pulsavam
e a maré tremia conforme a lua.
Havia barcos e o mundo era bem-vindo:
Trabalhadores, turistas, curiosos.
Mas a poluição, os dias de chuva,
esse vazamento impermeável de petróleo
destruíram a vista para o mar...

Hoje há apenas a ressaca
e um grande silêncio inabitável...

domingo, 30 de maio de 2010

O parto e o poeta

Cada palavra escrita pelo poeta
é um parto que este exerce 
Das juntas dos dedos, abre-se uma fenda abissal
E escorrem sílabas, frases, metáforas
Ele olha emocionado 
e vê que acaba de criar um ser vivo
Vivo, respirante, ofegante!
O poema é como um filho que se entrega ao mundo
Que se cria, a quem se dá carinho
Não há poema sem amor...
O poeta chora,
pois ali está um pedaço dele, um filho,
a sua genética, as suas palavras. 
Por mais que não descreva o poeta,
o poema é sempre o poeta.

Por isso o rascar da borracha contra o papel é sempre uma ferida
Que nem sempre cicatriza
E as bolinhas de papel jogadas no cesto de lixo
são abortos tristes, do que o poema viria a ser...


sábado, 29 de maio de 2010

Denise

"A cada verbo que você conjuga, você diz ao leitor que o tempo está passando."

Tenho conjugado tantos verbos!
Escrevo em pedaços de papéis,
os verbos que eu queria na minha vida
e os verbos que acabei de inventar.
Flexiono-os em tantos tempos
quanto posso lembrar, sem cartilhas
Tenho nesses verbos a maior esperança
de ver um relógio que existe em mim
produzindo tiques sonoros
ao marcar as horas andando
e eu marchando... em direção ao futuro!

Eu tenho dissecado os verbos diariamente
mas esse tempo do qual tanto preciso não quer passar...

Metáfora

Há uma rosa deitada sobre meu colo.
Me pergunto:
É melhor quando as pétalas caem,
uma a uma, até o fim,
ou quando a flor, silenciosamente,
murcha
resseca
enverga
e morre?

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Pedido de despedida

É muito simples:
eu te quero muito.
Eu te quero demais...
Tanto que lhe imploro
para que vá embora da minha vida.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Quem sou eu:

Sou toda latente:
tudo em mim está prestes a acontecer, talvez você possa ver;
Altamente desabável;
Minha alma é mais míope que meus olhos.

Para Alberto Caeiro

"Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos.
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dias de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz."
(O guardador de Rebanhos - Alberto Caeiro)

-

Em aula de Literatura
respondo às perguntas de análise
do fundo do teu texto:
Tenho de desmembrar as suas sensações
Dissecar você deitado na grama
Racionalizar o teu poema.

Mas você não tinha dito
que pensar é estar doente dos olhos?
Por que tenho que pensar sua poesia?
Quero senti-la!
Quero eu deitar-me na grama contigo.
E me sentir feliz ao teu lado
Sentindo - apenas sentindo! -
o sol no corpo.

Terei de fingir:
respondo as perguntas como se te analisasse
enquanto, por dentro, sinto
E apenas sinto.

domingo, 23 de maio de 2010

O Cemitério Terrível

As tuas palavras enterradas
e eu periodicamente insisto em voltar lá, com flores nas mãos 
e lágrimas nos olhos,
reler tudo o que foi escrito: um testamento em preto e branco,
(mas também a certidão de nascimento)
as cartas que nunca foram endereçadas, mas nós já sabíamos...
Existe naquelas palavras o poder de remexer as cinzas
e eu sinto como na primeira vez que as tinha lido
Mas minha alma se enfurece e eu choro... 
(À primeira vez  a minha alma apenas estremeceu... e eu chorei...)
Eu entrego as flores, derramo algumas lágrimas
procuro os sinais de que era mentira
E corro, arrependida: 
O que estou fazendo aqui, nesse cemitério 
cinza e mal-cuidado
onde está tão triste e sepultado
o nosso findo amor?


Aos edifícios tristes

Tão grandes e tão tristes: o mundo foi cruel aos enormes arranha-céus pairando sob o céu de cobalto... Eles podem tocar o sol, mas jamais conseguirão sequer um abraço! Os prédios que às vezes pendem em direção aos vizinhos, mas são incapazes  de estender um braço e lacear o prédio ao lado. E nós, humanos, tão laceáveis, tão móveis, construímos cortinas de ferro ao nosso redor, para que os outros braços jamais se aproximem o suficiente... Nós somos tristes como arranha-céus.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Aula de Física

"A estrela do Cruzeiro do Sul mais próxima da terra está a 59 anos-luz de nós. Quando olhamos uma estrela, vemos o que ela era há 59 anos. Tudo o que há no céu é passado."
Ano-luz: distância percorrida pela luz no vácuo em um ano (aproximadamente 9,5 trilhões de km)

Vês? Os sonhadores olham para o passado...

Os teus olhos são milenares
quando os encontro entre as estrelas.
Posso passar horas a ligar os pontos
e desenhar seus traços.
O teu rosto
traçou rotas, norteou a minha noite.
Existe uma constelação com o seu nome
A anos-luz da minha varanda,
de onde te contemplo...
Os deuses antigos, os sábios
sempre lhe estiveram estudando:
Sua constelação perfeita
Que tem as estrelas mais
brilhantes
desse universo...
Espero, vó, que o meu abraço não te esteja machucando, pois a fim de te guardar sempre comigo tenho lhe abraçado forte, forte, o mais forte que eu puder. Espero que eu não esteja comprimindo demais os teus ossos frágeis, teu pulmão frágil, mas sinto tanto medo de te perder... E vi que almofadaram as maçanetas para você não se machucar, mas não consigo te abraçar menos, não consigo te largar, vó, te amo e estou com tanto medo...

domingo, 16 de maio de 2010

Minha avó passou mal

"Sabe, Jú, quando eu estava lá, sem conseguir ficar de pé, eu até lembrei do Chico Xavier, sabe quem é o Chico Xavier? É um médium, tem vários livros publicados... E ele conta que uma vez, na década de 70, ele tava viajando de avião - e você imagina como eram ruins os aviões na década de 70 - e o avião começou a chacoalhar e virar de ponta cabeça, e todos no avião começaram a gritar. A aeromoça disse para se acalmarem, que logo ia passar, mas todo mundo gritava, e o Chico começou a gritar também... As moças atrás dele rezando e ele gritando e rezando, até que alguém apareceu para ele - ele era médium, né - e disse 'Chico, o que você tá fazendo?' e ele respondeu 'Eu estou com medo, não quero morrer. Todo mundo tá gritando, eu grito junto...' ao que sua aparição lhe disse 'Chico, toma vergonha na cara, todos vocês vão morrer... Mas morra com dignidade, som sobriedade, pare de gritar'! Eu estava aqui em casa, morrendo de medo de morrer, sem conseguir pedir ajuda e gritando, gritando... Aí eu pensei 'Se for pra eu morrer, que eu morra com sobriedade, sem gritar...', Jú... Eu achei que eu ia morrer, Jú... Não desejo isso nem pra pior pessoa do mundo..."

sábado, 15 de maio de 2010

O que era uma parede hoje é janela, num canto recém-clareado da minha alma. Hoje eu descobri que é possível: talvez doa enquanto estão martelando camadas e camadas de cimento, mas chegamos ao outro lado e eis que há o sol... e eis que é bom sentir o sol entrando pelas feridas abertas entre os átomos de dor e dor e dor, quando a luz não tem medo de atravessar. Hoje retiramos as paredes e colocamos uma janela sempre aberta no meu peito, você pode olhar através e sentir meu coração pulsando, pulsando, pulsando. Quem constrói casas deveria construir casas de janela, porque não há vida sem luz. Hoje permitimos o amor.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Eu quero uma revolução!
Hoje eu acordaria vestida para guerra
E iria além de todos os outros dias:
Iria para a guerra, com as minhas armas
eu lutaria até o fim
Dentro de mim
Eu iria até o fundo
Me afogaria nesse mar profundo, mas doce, doce...
Eu sou o mar doce.
Me afogaria em mim
para conhecer as fossas abissais da minha alma
os seres vivos que eu sou,
podem até brilhar no fundo...
Hoje eu quero que tudo recomece
hoje eu quero nascer de mim mesma
para mim mesma
Hoje eu queria fazer a diferença...

domingo, 9 de maio de 2010

Construção

Eu, que tive medo de sentir dor
me construí como uma parede:
cobri a alma, o vazamento
as goteiras que escorriam constantes pelos meus olhos
cobri tudo com revestimento colorido
e selei com rejunte
Eu, pra não me entregar de vez,
me escondi por trás dos quadros...

Mas você não precisou de escavadeiras
ou de bombas de implosão...
Seus dedos derreteram o rejunte,
derreteram os quadros, a tinta...
E das fendas entre as pedras
viu brilhar um pedaço de mim que não lhe pertencia
você viu...
E foi embora.

Daonde hoje escorrem as mais verdadeiras lágrimas,
pois a minha alma é uma fratura exposta
na parede que você destruiu.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Eu tenho vontade de comer poesia

Fosse o meu prato de arroz e feijão
uma bandeja de palavras
fosse a sopa
uma cumbuca de adjetivo
fosse a alface
um pronome delicado
Fosse o meu bife
uma metáfora bem construída

Fosse o meu almoço
um belo texto,
fastava-me, fartava-me sem pensar na hora
na congestão, nas calorias
No tempo perdido em silêncio
Esbanjava minha gula
Mastigava lenta e pausadamente

Mas não: olho a refeição
agradeço ao mundo por tê-la na mesa
mas não sinto vontade de experimentar:
eu quero comer poesia...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Torturante

Não abra essa porta. Proíbe-se a entrada de estranhos no recinto. Por favor, não insista.

Pois que entremos pela porta escura, num lapso do vigia.
Entremos num quarto branco, brilhante, limpo, cujo sabor cítrico agrada aos sentidos. Você quase teria vontade de se manter lá dentro, não fossem óbvios os motivos escusos de tanto cuidado.
Encoste a porta com cuidado e não feche os olhos ao que está por vir. Não faça barulho. Não queremos que te descubram.

Olhe ao canto. Verá um balde azul, cheio de água. Verá um rapaz ajoelhado, molhado pela cintura. Perceba que seu rosto se mantém impassível. Perceba que seus olhos estão secos, apesar da água. Não comente com os seus amigos. Não conte a eles como um rapaz não muda de ideia em um lapso de tortura.

Agora veja: essa garota em pé ao lado do rapaz. Essa garota sou eu. Sou eu quem chora com uma dor lancinante, apesar de ter assumido a postura da torturadora. Eu seguro o rosto do rapaz nas mãos, veja como eu estou triste! Enfio-o no balde, e o ar me foge aos pulmões, quanto mais lhe mantenho afogando.

Eu, que não suporto mais a asfixia, levanto-te e me perco dentro dos seus olhos. Secos.

me ame. pelo amor de deus, me ame. mude de ideia, eu valho a pena. me ame novamente.  POR FAVOR, MEU AMOR, VOLTE ATRÁS, LHE IMPLORO, POR FAVOR ME AME DE NOVO.

Os olhos secos.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Querida,

"C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore,
Serais ce possible alors ?"



Não. Não, ele não te ama mais. 

terça-feira, 20 de abril de 2010

Passeando por uma dessas ruas que nunca sabemos o nome
eu vi uma mulher triste.
No primeiro momento, me maravilhei
pensando que ela brilhava!
mas entendi: eram lágrimas escorrendo.
Meus olhos se encontraram nos dela
e ela também me olhava...
Eu não pude me privar de sustentar o encontro
porque uma desconhecida que chora é um choro que não se acalma:
se contempla.

E havia uma mulher triste me olhando com curiosidade,
a mesma curiosidade e a mesma afeição anônima
de uma mulher que vê outra chorando
como quem atravessa o concreto de lágrimas puras e atinge uma alma.

Tentei falar: você quer conversar?
E sua boca me respondeu, mas não pude ouvir palavra alguma.
Você quer ser minha amiga? Quer se dividir comigo?
Os lábios molhados se moviam
e um silêncio que eu não podia atingir.

Desisti, então
e virei meu rosto, a fim de fugir do magnetismo
e vi seu rosto se virando junto, para o lado oposto.
Olhei de novo e os olhos brilhantes me espiavam, apavorados...
Foi então que eu percebi:

estou parada em frente ao meu reflexo no espelho.
A mulher triste sou eu.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Das cores

Existe um espectro de concreto na esquina
dentro dos meus olhos, a vida é cinza
existe uma poeira fina que não desgruda dos pés,
existe uma ausência no lugar da porta.

O asfalto levantou-se do chão e se ergueu sobre mim
num abraço quente, mas cinza, cinza, me queimou
Eu machucada nesse mundo de cimento
Eu que via, mas fingia que não

Só que você apareceu com essas roupas coloridas
e os cabelos coloridos
os seus olhos tristes, mas tão coloridos por dentro
que eu tive de me acostumar com a ausência do cinza
com você por perto
como eu poderia não me apaixonar?

sábado, 10 de abril de 2010

"te ver triste é pior que te ver morta"

não olhe agora, estou morrendo
de tanta tristeza...
o homem impecável disse
'estamos agora testemunhando a presença de Deus'
mas nos olhos fundos de perda, de lágrimas
eu não vi Deus nenhum,
eu não encontrei alento algum naquele homem
e quis socá-lo, eu quis que ele sentisse as minhas lágrimas
porque eu me entreguei aos seus cuidados e
ele me julgou:
eu não estou me vitimizando, eu estou sofrendo.
não estou me colocando num lugar de mártir,
eu estou triste.
Eu só estou triste.

terça-feira, 6 de abril de 2010

190

Me sequestraram.
Por favor, venham me procurar
estarei n'alguma esquina
olhando para as estrelas
ou estendida no chão
- mas não se desesperem! -
sonhando...

Eu tentei um acordo
ofereci dinheiro, casa, carro,
meus jeans surrados
ele não quis me devolver
Tentei fugir correndo
mas ele tem braços longos
não pude escapar

Imploro, me libertem!
Ou eu serei a eterna vítima
a eterna escrava
desse sequestrador sem piedade, inumano
esse sequestrador que me enlouquece
com seus olhos doces

Corram com suas armas,
com sua proteção de fogo
me retirem dos braços
desse amor...

sábado, 3 de abril de 2010

Problema de Português

Júlia Munhoz vê crase onde não tem.
Vê crise onde não tem.

Para Godot

Esperando
um dia novo,
o teu olhar, o meu mundo
esperando a melhora
que eu não posso fazer sozinha
Eu estou esperando
paciente
ansiosa
eu estou esperando com um tremor nas pernas
com um brilho polido de espelho nos olhos
Te juro que estou esperando!
Mas espero surreal
por um Godot que eu sei que não virá
E quando se fecharem as cortinas
me levantarei da espera iluminada
para te esperar na rua, na chuva, em casa
paciente
ansiosa...

Um pêndulo para Foucault

Eu sou magnética:
o mundo roda
e eu rodopio,
rodopio, rodopio e insisto
na velocidade de luz
não poderão me ver
porque eu sou o pêndulo invísivel
eu oscilo em período inconstante
frequência inconstante
oscilo entre o tédio e o sofrimento?
Não.
Oscilo entre você e eu mesma
eu sou o contrário da ausência.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Os adultos dirão que não, mas eu posso afirmar: existe um monstro debaixo da cama. Outro monstro dentro do armário. Outro monstro esperando atrás da porta. Mais um do lado interno do lustre. Os adultos dirão que eu estou inventando tudo isso, mas eu sei porque eu os conheço (os monstros, não os adultos). Quando você está distraída, um monstrinho se esgueira e sobe ao teu ombro, sem que você perceba. Logo todos os outros se empoleiraram ao redor de você, se emaranhando nos teus cabelos e sussurrando baixinho, sussurrando coisas que só você pode ouvir, os monstros lhe entram na cabeça e vão parando o tempo no relógio, tua vida em câmera lenta e você desejando apenas que passe, por favor vão embora! Os monstros não vão embora, eles se alimentarão do teu medo, esse tremor que parte da tua alma e chega como um terremoto incontrolável no peito, na pele, nas pontas dos dedos e você implora que acabe logo.
Os céticos dirão que não, mas por favor acredite: existe um anjo debaixo da tua asa. Existe um anjinho sentado em cima da tua cabeça. Existe um anjo morando dentro do teu umbigo, existe um anjo descansando em cada um dos teus olhos. Alguns dirão que é mentira minha, como se eu fosse capaz de inventar coisas tão sérias! Mas os anjos não têm medo de você: eles estarão lá sempre, independente do seu estado de espírito e são eles que vêm lhe fazer coceguinhas na barriga quando você acha que não há mais nada para se fazer, que lhe darão alguma pontinha de esperança, apesar de haverem monstros terríveis sobrevoando teus pensamentos. Por favor, acredite mais nos anjos que nos monstros, pois os anjos são seu anticorpo.
Como se livrar de um monstro? Ria, por favor olhe nos olhos de um monstro e ria lá dentro, e verá o que acontece, um monstro se dissolvendo e voltando a ser, apenas, o desconhecido do escuro de debaixo da porta. E os seus anjinhos, com suas coceguinhas, com sua esperança, com seu apoio invisível, eles lhe darão tudo para uma boa risada, e o medo vai embora, e o tempo volta ao seu ritmo, e você encontra alguma paz, ou algum bom motivo para continuar.

(Para Cris)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Hoje acordei inspirada: 'vou escrever poesia!' pensei, 'vou escrever a minha mais bela poesia, derrubar os alicerces da minha própria escrita. Hoje vou falar sobre coisas novas, utilizar uma nova linguagem, me revolucionar!'
De lápis em punho e o papel branco, senti o arrepio do que estaria por vir: o papel agora branco preenchido por lindas palavras que eu inventei. Então me permiti ir escrevendo, escrevendo, por horas, horas, descrevendo a paisagem da minha imaginação, explicando a geografia do meu mundo, pincelando meus conceitos de amor, música, filosofia, teatro, horas, horas e horas.
Terminei (não sei se por cansaço ou por esgotamento de tema). Me senti como um grande artista deve se sentir após terminar sua obra prima: não consegui olhar para o papel. Então, com o cuidado de quem abre pela primeira vez um livro que sempre desejou ler, foquei minha letra rabiscada.
me havia traído mais outra vez.
Era:

seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome (...)