domingo, 16 de maio de 2010
Minha avó passou mal
"Sabe, Jú, quando eu estava lá, sem conseguir ficar de pé, eu até lembrei do Chico Xavier, sabe quem é o Chico Xavier? É um médium, tem vários livros publicados... E ele conta que uma vez, na década de 70, ele tava viajando de avião - e você imagina como eram ruins os aviões na década de 70 - e o avião começou a chacoalhar e virar de ponta cabeça, e todos no avião começaram a gritar. A aeromoça disse para se acalmarem, que logo ia passar, mas todo mundo gritava, e o Chico começou a gritar também... As moças atrás dele rezando e ele gritando e rezando, até que alguém apareceu para ele - ele era médium, né - e disse 'Chico, o que você tá fazendo?' e ele respondeu 'Eu estou com medo, não quero morrer. Todo mundo tá gritando, eu grito junto...' ao que sua aparição lhe disse 'Chico, toma vergonha na cara, todos vocês vão morrer... Mas morra com dignidade, som sobriedade, pare de gritar'! Eu estava aqui em casa, morrendo de medo de morrer, sem conseguir pedir ajuda e gritando, gritando... Aí eu pensei 'Se for pra eu morrer, que eu morra com sobriedade, sem gritar...', Jú... Eu achei que eu ia morrer, Jú... Não desejo isso nem pra pior pessoa do mundo..."
sábado, 15 de maio de 2010
O que era uma parede hoje é janela, num canto recém-clareado da minha alma. Hoje eu descobri que é possível: talvez doa enquanto estão martelando camadas e camadas de cimento, mas chegamos ao outro lado e eis que há o sol... e eis que é bom sentir o sol entrando pelas feridas abertas entre os átomos de dor e dor e dor, quando a luz não tem medo de atravessar. Hoje retiramos as paredes e colocamos uma janela sempre aberta no meu peito, você pode olhar através e sentir meu coração pulsando, pulsando, pulsando. Quem constrói casas deveria construir casas de janela, porque não há vida sem luz. Hoje permitimos o amor.
terça-feira, 11 de maio de 2010
Eu quero uma revolução!
Hoje eu acordaria vestida para guerra
E iria além de todos os outros dias:
Iria para a guerra, com as minhas armas
eu lutaria até o fim
Dentro de mim
Eu iria até o fundo
Me afogaria nesse mar profundo, mas doce, doce...
Eu sou o mar doce.
Me afogaria em mim
para conhecer as fossas abissais da minha alma
os seres vivos que eu sou,
podem até brilhar no fundo...
Hoje eu quero que tudo recomece
hoje eu quero nascer de mim mesma
para mim mesma
Hoje eu queria fazer a diferença...
Hoje eu acordaria vestida para guerra
E iria além de todos os outros dias:
Iria para a guerra, com as minhas armas
eu lutaria até o fim
Dentro de mim
Eu iria até o fundo
Me afogaria nesse mar profundo, mas doce, doce...
Eu sou o mar doce.
Me afogaria em mim
para conhecer as fossas abissais da minha alma
os seres vivos que eu sou,
podem até brilhar no fundo...
Hoje eu quero que tudo recomece
hoje eu quero nascer de mim mesma
para mim mesma
Hoje eu queria fazer a diferença...
domingo, 9 de maio de 2010
Construção
Eu, que tive medo de sentir dor
me construí como uma parede:
cobri a alma, o vazamento
as goteiras que escorriam constantes pelos meus olhos
cobri tudo com revestimento colorido
e selei com rejunte
Eu, pra não me entregar de vez,
me escondi por trás dos quadros...
Mas você não precisou de escavadeiras
ou de bombas de implosão...
Seus dedos derreteram o rejunte,
derreteram os quadros, a tinta...
E das fendas entre as pedras
viu brilhar um pedaço de mim que não lhe pertencia
você viu...
E foi embora.
Daonde hoje escorrem as mais verdadeiras lágrimas,
pois a minha alma é uma fratura exposta
na parede que você destruiu.
me construí como uma parede:
cobri a alma, o vazamento
as goteiras que escorriam constantes pelos meus olhos
cobri tudo com revestimento colorido
e selei com rejunte
Eu, pra não me entregar de vez,
me escondi por trás dos quadros...
Mas você não precisou de escavadeiras
ou de bombas de implosão...
Seus dedos derreteram o rejunte,
derreteram os quadros, a tinta...
E das fendas entre as pedras
viu brilhar um pedaço de mim que não lhe pertencia
você viu...
E foi embora.
Daonde hoje escorrem as mais verdadeiras lágrimas,
pois a minha alma é uma fratura exposta
na parede que você destruiu.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Eu tenho vontade de comer poesia
Fosse o meu prato de arroz e feijão
uma bandeja de palavras
fosse a sopa
uma cumbuca de adjetivo
fosse a alface
um pronome delicado
Fosse o meu bife
uma metáfora bem construída
Fosse o meu almoço
um belo texto,
fastava-me, fartava-me sem pensar na hora
na congestão, nas calorias
No tempo perdido em silêncio
Esbanjava minha gula
Mastigava lenta e pausadamente
Mas não: olho a refeição
agradeço ao mundo por tê-la na mesa
mas não sinto vontade de experimentar:
eu quero comer poesia...
uma bandeja de palavras
fosse a sopa
uma cumbuca de adjetivo
fosse a alface
um pronome delicado
Fosse o meu bife
uma metáfora bem construída
Fosse o meu almoço
um belo texto,
fastava-me, fartava-me sem pensar na hora
na congestão, nas calorias
No tempo perdido em silêncio
Esbanjava minha gula
Mastigava lenta e pausadamente
Mas não: olho a refeição
agradeço ao mundo por tê-la na mesa
mas não sinto vontade de experimentar:
eu quero comer poesia...
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Torturante
Não abra essa porta. Proíbe-se a entrada de estranhos no recinto. Por favor, não insista.
Pois que entremos pela porta escura, num lapso do vigia.
Entremos num quarto branco, brilhante, limpo, cujo sabor cítrico agrada aos sentidos. Você quase teria vontade de se manter lá dentro, não fossem óbvios os motivos escusos de tanto cuidado.
Encoste a porta com cuidado e não feche os olhos ao que está por vir. Não faça barulho. Não queremos que te descubram.
Olhe ao canto. Verá um balde azul, cheio de água. Verá um rapaz ajoelhado, molhado pela cintura. Perceba que seu rosto se mantém impassível. Perceba que seus olhos estão secos, apesar da água. Não comente com os seus amigos. Não conte a eles como um rapaz não muda de ideia em um lapso de tortura.
Agora veja: essa garota em pé ao lado do rapaz. Essa garota sou eu. Sou eu quem chora com uma dor lancinante, apesar de ter assumido a postura da torturadora. Eu seguro o rosto do rapaz nas mãos, veja como eu estou triste! Enfio-o no balde, e o ar me foge aos pulmões, quanto mais lhe mantenho afogando.
Eu, que não suporto mais a asfixia, levanto-te e me perco dentro dos seus olhos. Secos.
me ame. pelo amor de deus, me ame. mude de ideia, eu valho a pena. me ame novamente. POR FAVOR, MEU AMOR, VOLTE ATRÁS, LHE IMPLORO, POR FAVOR ME AME DE NOVO.
Os olhos secos.
Pois que entremos pela porta escura, num lapso do vigia.
Entremos num quarto branco, brilhante, limpo, cujo sabor cítrico agrada aos sentidos. Você quase teria vontade de se manter lá dentro, não fossem óbvios os motivos escusos de tanto cuidado.
Encoste a porta com cuidado e não feche os olhos ao que está por vir. Não faça barulho. Não queremos que te descubram.
Olhe ao canto. Verá um balde azul, cheio de água. Verá um rapaz ajoelhado, molhado pela cintura. Perceba que seu rosto se mantém impassível. Perceba que seus olhos estão secos, apesar da água. Não comente com os seus amigos. Não conte a eles como um rapaz não muda de ideia em um lapso de tortura.
Agora veja: essa garota em pé ao lado do rapaz. Essa garota sou eu. Sou eu quem chora com uma dor lancinante, apesar de ter assumido a postura da torturadora. Eu seguro o rosto do rapaz nas mãos, veja como eu estou triste! Enfio-o no balde, e o ar me foge aos pulmões, quanto mais lhe mantenho afogando.
Eu, que não suporto mais a asfixia, levanto-te e me perco dentro dos seus olhos. Secos.
me ame. pelo amor de deus, me ame. mude de ideia, eu valho a pena. me ame novamente. POR FAVOR, MEU AMOR, VOLTE ATRÁS, LHE IMPLORO, POR FAVOR ME AME DE NOVO.
Os olhos secos.
terça-feira, 27 de abril de 2010
Querida,
"C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore,
Serais ce possible alors ?"
Não. Não, ele não te ama mais.
Serais ce possible alors ?"
Não. Não, ele não te ama mais.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Passeando por uma dessas ruas que nunca sabemos o nome
eu vi uma mulher triste.
No primeiro momento, me maravilhei
pensando que ela brilhava!
mas entendi: eram lágrimas escorrendo.
Meus olhos se encontraram nos dela
e ela também me olhava...
Eu não pude me privar de sustentar o encontro
porque uma desconhecida que chora é um choro que não se acalma:
se contempla.
E havia uma mulher triste me olhando com curiosidade,
a mesma curiosidade e a mesma afeição anônima
de uma mulher que vê outra chorando
como quem atravessa o concreto de lágrimas puras e atinge uma alma.
Tentei falar: você quer conversar?
E sua boca me respondeu, mas não pude ouvir palavra alguma.
Você quer ser minha amiga? Quer se dividir comigo?
Os lábios molhados se moviam
e um silêncio que eu não podia atingir.
Desisti, então
e virei meu rosto, a fim de fugir do magnetismo
e vi seu rosto se virando junto, para o lado oposto.
Olhei de novo e os olhos brilhantes me espiavam, apavorados...
Foi então que eu percebi:
estou parada em frente ao meu reflexo no espelho.
A mulher triste sou eu.
eu vi uma mulher triste.
No primeiro momento, me maravilhei
pensando que ela brilhava!
mas entendi: eram lágrimas escorrendo.
Meus olhos se encontraram nos dela
e ela também me olhava...
Eu não pude me privar de sustentar o encontro
porque uma desconhecida que chora é um choro que não se acalma:
se contempla.
E havia uma mulher triste me olhando com curiosidade,
a mesma curiosidade e a mesma afeição anônima
de uma mulher que vê outra chorando
como quem atravessa o concreto de lágrimas puras e atinge uma alma.
Tentei falar: você quer conversar?
E sua boca me respondeu, mas não pude ouvir palavra alguma.
Você quer ser minha amiga? Quer se dividir comigo?
Os lábios molhados se moviam
e um silêncio que eu não podia atingir.
Desisti, então
e virei meu rosto, a fim de fugir do magnetismo
e vi seu rosto se virando junto, para o lado oposto.
Olhei de novo e os olhos brilhantes me espiavam, apavorados...
Foi então que eu percebi:
estou parada em frente ao meu reflexo no espelho.
A mulher triste sou eu.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Das cores
Existe um espectro de concreto na esquina
dentro dos meus olhos, a vida é cinza
existe uma poeira fina que não desgruda dos pés,
existe uma ausência no lugar da porta.
O asfalto levantou-se do chão e se ergueu sobre mim
num abraço quente, mas cinza, cinza, me queimou
Eu machucada nesse mundo de cimento
Eu que via, mas fingia que não
Só que você apareceu com essas roupas coloridas
e os cabelos coloridos
os seus olhos tristes, mas tão coloridos por dentro
que eu tive de me acostumar com a ausência do cinza
com você por perto
como eu poderia não me apaixonar?
dentro dos meus olhos, a vida é cinza
existe uma poeira fina que não desgruda dos pés,
existe uma ausência no lugar da porta.
O asfalto levantou-se do chão e se ergueu sobre mim
num abraço quente, mas cinza, cinza, me queimou
Eu machucada nesse mundo de cimento
Eu que via, mas fingia que não
Só que você apareceu com essas roupas coloridas
e os cabelos coloridos
os seus olhos tristes, mas tão coloridos por dentro
que eu tive de me acostumar com a ausência do cinza
com você por perto
como eu poderia não me apaixonar?
sábado, 10 de abril de 2010
"te ver triste é pior que te ver morta"
não olhe agora, estou morrendo
de tanta tristeza...
o homem impecável disse
'estamos agora testemunhando a presença de Deus'
mas nos olhos fundos de perda, de lágrimas
eu não vi Deus nenhum,
eu não encontrei alento algum naquele homem
e quis socá-lo, eu quis que ele sentisse as minhas lágrimas
porque eu me entreguei aos seus cuidados e
ele me julgou:
eu não estou me vitimizando, eu estou sofrendo.
não estou me colocando num lugar de mártir,
eu estou triste.
Eu só estou triste.
de tanta tristeza...
o homem impecável disse
'estamos agora testemunhando a presença de Deus'
mas nos olhos fundos de perda, de lágrimas
eu não vi Deus nenhum,
eu não encontrei alento algum naquele homem
e quis socá-lo, eu quis que ele sentisse as minhas lágrimas
porque eu me entreguei aos seus cuidados e
ele me julgou:
eu não estou me vitimizando, eu estou sofrendo.
não estou me colocando num lugar de mártir,
eu estou triste.
Eu só estou triste.
terça-feira, 6 de abril de 2010
190
Me sequestraram.
Por favor, venham me procurar
estarei n'alguma esquina
olhando para as estrelas
ou estendida no chão
- mas não se desesperem! -
sonhando...
Eu tentei um acordo
ofereci dinheiro, casa, carro,
meus jeans surrados
ele não quis me devolver
Tentei fugir correndo
mas ele tem braços longos
não pude escapar
Imploro, me libertem!
Ou eu serei a eterna vítima
a eterna escrava
desse sequestrador sem piedade, inumano
esse sequestrador que me enlouquece
com seus olhos doces
Corram com suas armas,
com sua proteção de fogo
me retirem dos braços
desse amor...
Por favor, venham me procurar
estarei n'alguma esquina
olhando para as estrelas
ou estendida no chão
- mas não se desesperem! -
sonhando...
Eu tentei um acordo
ofereci dinheiro, casa, carro,
meus jeans surrados
ele não quis me devolver
Tentei fugir correndo
mas ele tem braços longos
não pude escapar
Imploro, me libertem!
Ou eu serei a eterna vítima
a eterna escrava
desse sequestrador sem piedade, inumano
esse sequestrador que me enlouquece
com seus olhos doces
Corram com suas armas,
com sua proteção de fogo
me retirem dos braços
desse amor...
sábado, 3 de abril de 2010
Para Godot
Esperando
um dia novo,
o teu olhar, o meu mundo
esperando a melhora
que eu não posso fazer sozinha
Eu estou esperando
paciente
ansiosa
eu estou esperando com um tremor nas pernas
com um brilho polido de espelho nos olhos
Te juro que estou esperando!
Mas espero surreal
por um Godot que eu sei que não virá
E quando se fecharem as cortinas
me levantarei da espera iluminada
para te esperar na rua, na chuva, em casa
paciente
ansiosa...
um dia novo,
o teu olhar, o meu mundo
esperando a melhora
que eu não posso fazer sozinha
Eu estou esperando
paciente
ansiosa
eu estou esperando com um tremor nas pernas
com um brilho polido de espelho nos olhos
Te juro que estou esperando!
Mas espero surreal
por um Godot que eu sei que não virá
E quando se fecharem as cortinas
me levantarei da espera iluminada
para te esperar na rua, na chuva, em casa
paciente
ansiosa...
Um pêndulo para Foucault
Eu sou magnética:
o mundo roda
e eu rodopio,
rodopio, rodopio e insisto
na velocidade de luz
não poderão me ver
porque eu sou o pêndulo invísivel
eu oscilo em período inconstante
frequência inconstante
oscilo entre o tédio e o sofrimento?
Não.
Oscilo entre você e eu mesma
eu sou o contrário da ausência.
o mundo roda
e eu rodopio,
rodopio, rodopio e insisto
na velocidade de luz
não poderão me ver
porque eu sou o pêndulo invísivel
eu oscilo em período inconstante
frequência inconstante
oscilo entre o tédio e o sofrimento?
Não.
Oscilo entre você e eu mesma
eu sou o contrário da ausência.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Os adultos dirão que não, mas eu posso afirmar: existe um monstro debaixo da cama. Outro monstro dentro do armário. Outro monstro esperando atrás da porta. Mais um do lado interno do lustre. Os adultos dirão que eu estou inventando tudo isso, mas eu sei porque eu os conheço (os monstros, não os adultos). Quando você está distraída, um monstrinho se esgueira e sobe ao teu ombro, sem que você perceba. Logo todos os outros se empoleiraram ao redor de você, se emaranhando nos teus cabelos e sussurrando baixinho, sussurrando coisas que só você pode ouvir, os monstros lhe entram na cabeça e vão parando o tempo no relógio, tua vida em câmera lenta e você desejando apenas que passe, por favor vão embora! Os monstros não vão embora, eles se alimentarão do teu medo, esse tremor que parte da tua alma e chega como um terremoto incontrolável no peito, na pele, nas pontas dos dedos e você implora que acabe logo.
Os céticos dirão que não, mas por favor acredite: existe um anjo debaixo da tua asa. Existe um anjinho sentado em cima da tua cabeça. Existe um anjo morando dentro do teu umbigo, existe um anjo descansando em cada um dos teus olhos. Alguns dirão que é mentira minha, como se eu fosse capaz de inventar coisas tão sérias! Mas os anjos não têm medo de você: eles estarão lá sempre, independente do seu estado de espírito e são eles que vêm lhe fazer coceguinhas na barriga quando você acha que não há mais nada para se fazer, que lhe darão alguma pontinha de esperança, apesar de haverem monstros terríveis sobrevoando teus pensamentos. Por favor, acredite mais nos anjos que nos monstros, pois os anjos são seu anticorpo.
Os céticos dirão que não, mas por favor acredite: existe um anjo debaixo da tua asa. Existe um anjinho sentado em cima da tua cabeça. Existe um anjo morando dentro do teu umbigo, existe um anjo descansando em cada um dos teus olhos. Alguns dirão que é mentira minha, como se eu fosse capaz de inventar coisas tão sérias! Mas os anjos não têm medo de você: eles estarão lá sempre, independente do seu estado de espírito e são eles que vêm lhe fazer coceguinhas na barriga quando você acha que não há mais nada para se fazer, que lhe darão alguma pontinha de esperança, apesar de haverem monstros terríveis sobrevoando teus pensamentos. Por favor, acredite mais nos anjos que nos monstros, pois os anjos são seu anticorpo.
Como se livrar de um monstro? Ria, por favor olhe nos olhos de um monstro e ria lá dentro, e verá o que acontece, um monstro se dissolvendo e voltando a ser, apenas, o desconhecido do escuro de debaixo da porta. E os seus anjinhos, com suas coceguinhas, com sua esperança, com seu apoio invisível, eles lhe darão tudo para uma boa risada, e o medo vai embora, e o tempo volta ao seu ritmo, e você encontra alguma paz, ou algum bom motivo para continuar.
(Para Cris)
(Para Cris)
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Hoje acordei inspirada: 'vou escrever poesia!' pensei, 'vou escrever a minha mais bela poesia, derrubar os alicerces da minha própria escrita. Hoje vou falar sobre coisas novas, utilizar uma nova linguagem, me revolucionar!'
De lápis em punho e o papel branco, senti o arrepio do que estaria por vir: o papel agora branco preenchido por lindas palavras que eu inventei. Então me permiti ir escrevendo, escrevendo, por horas, horas, descrevendo a paisagem da minha imaginação, explicando a geografia do meu mundo, pincelando meus conceitos de amor, música, filosofia, teatro, horas, horas e horas.
Terminei (não sei se por cansaço ou por esgotamento de tema). Me senti como um grande artista deve se sentir após terminar sua obra prima: não consegui olhar para o papel. Então, com o cuidado de quem abre pela primeira vez um livro que sempre desejou ler, foquei minha letra rabiscada.
me havia traído mais outra vez.
Era:
seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome (...)
De lápis em punho e o papel branco, senti o arrepio do que estaria por vir: o papel agora branco preenchido por lindas palavras que eu inventei. Então me permiti ir escrevendo, escrevendo, por horas, horas, descrevendo a paisagem da minha imaginação, explicando a geografia do meu mundo, pincelando meus conceitos de amor, música, filosofia, teatro, horas, horas e horas.
Terminei (não sei se por cansaço ou por esgotamento de tema). Me senti como um grande artista deve se sentir após terminar sua obra prima: não consegui olhar para o papel. Então, com o cuidado de quem abre pela primeira vez um livro que sempre desejou ler, foquei minha letra rabiscada.
me havia traído mais outra vez.
Era:
seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nomeseu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome seu nome (...)
quarta-feira, 24 de março de 2010
quinta-feira, 18 de março de 2010
Esticou os olhos por curiosidade, apenas para senti-los arderem de ciúme, com uma dor tão profunda que não poderia pronunciar. Foi como uma morte.
Foi então que eu entendi. O lobo é o homem do lobo. O gato morto, caído do telhado. Eu sou a minha loba de garras frias que se morde e se coça e coça a própria sarna e rasga a própria dor, por dentro, para sofrer mas para se perdoar pelos crimes atrozes que cometeu contra si mesma. As minhas unhas apertando a jugular e eu querendo ser a leoa impassível que me mostraria os dentes e me acossaria num segundo, mas eu posso ser apenas a gata de uma vida só que quis saber como era ser pomba e do telhado escorreu pelo pavimento, sem saber que a gata tem mais de leoa livre que a pomba e que a loba se estrangula porque não é mais a mordida ou a sarna que lhe estão coçando, mas algum outro lugar que de cima do telhado não alcançaria. Foi como uma morte.
terça-feira, 16 de março de 2010
A tempo
Ouça: meu coração bate no tique do teu relógio
mas eu não sei lê-lo no teu pulso,
taque
e eu pedindo para você me interpretar as horas
tique
pra você me abraçar,
taque - não me largue no titubear do tempo.
Venha! Mas não perca a hora,
pode ser de você chegar cedo demais
e eu estarei perdida num outro pulso
ou pode ser de você chegar muito tarde
e eu já não vou acreditar em mais nada
e talvez não permita que você entre.
Mas venha,
venha quando puder,
burle as leis do meu mundo
(que ele nem gira no tempo do relógio)
abra as portas: estão apenas encostadas.
Venha, me salve do meu tempo ocioso
das minhas horas de dor
venha, me salve do meu auto-flagelo atemporal
venha... e faça do teu tempo meu tempo.
(que não passará)
mas eu não sei lê-lo no teu pulso,
taque
e eu pedindo para você me interpretar as horas
tique
pra você me abraçar,
taque - não me largue no titubear do tempo.
Venha! Mas não perca a hora,
pode ser de você chegar cedo demais
e eu estarei perdida num outro pulso
ou pode ser de você chegar muito tarde
e eu já não vou acreditar em mais nada
e talvez não permita que você entre.
Mas venha,
venha quando puder,
burle as leis do meu mundo
(que ele nem gira no tempo do relógio)
abra as portas: estão apenas encostadas.
Venha, me salve do meu tempo ocioso
das minhas horas de dor
venha, me salve do meu auto-flagelo atemporal
venha... e faça do teu tempo meu tempo.
(que não passará)
domingo, 14 de março de 2010
Etiquetas II
Não passar a ferro
não utilizar alvejantes, amaciantes,
não esfregar sem pudor
não bater na máquina de lavar
Composição:
80% amor
15% medo
3% esperança
2% elastano
não utilizar alvejantes, amaciantes,
não esfregar sem pudor
não bater na máquina de lavar
Composição:
80% amor
15% medo
3% esperança
2% elastano
Etiquetas
Favor bater na porta antes de entrar.
Favor esperar que os outros se sirvam de carinho, todos precisam.
Favor utilizar o tom sereno.
Favor manter a calma, amar é bom, mas dói, mas passa.
Favor não assustar os transeuntes: a tua dor é como um teu osso, não pertence a mais ninguém.
Favor amar silenciosamente: o teu amor é como o teu ciso, não pertence e mais ninguém.
Favor não trocar a ordem dos talheres, dos pratos, dos dias da semana.
Favor munir-se de bom senso, amor próprio, auto estima.
Favor respeitar o alarde alheio, respeitar a dor alheia, respeitar a falta de boas maneiras alheias.
É de bom tom amar com alguma tristeza, é de bom tom amar.
Favor esperar que os outros se sirvam de carinho, todos precisam.
Favor utilizar o tom sereno.
Favor manter a calma, amar é bom, mas dói, mas passa.
Favor não assustar os transeuntes: a tua dor é como um teu osso, não pertence a mais ninguém.
Favor amar silenciosamente: o teu amor é como o teu ciso, não pertence e mais ninguém.
Favor não trocar a ordem dos talheres, dos pratos, dos dias da semana.
Favor munir-se de bom senso, amor próprio, auto estima.
Favor respeitar o alarde alheio, respeitar a dor alheia, respeitar a falta de boas maneiras alheias.
É de bom tom amar com alguma tristeza, é de bom tom amar.
sexta-feira, 12 de março de 2010
E se eu fui embora
foi por querer...
pra você ver que isso não era amor,
é só precisão
de um colo quente, de um beijo quente
não é amor!
É necessidade de atenção
eu fui foi pra você pensar
Pra você entender o que eu sou
eu sou é troca!
Eu sou quando todo mundo se divide...
Você pra ele ele pra ti
Entende?
Eu sou quando vocês pecam
e são cúmplices no crime
- e não testemunhas, apenas -
Dar não é amor
Eu sou doação de dois... De dois!
Por isso te deixei:
pra você me entender melhor.
Mas não esqueça de manter
as portas, janelas, os olhos abertos
porque eu volto, garota...
Ah, eu volto logo...
foi por querer...
pra você ver que isso não era amor,
é só precisão
de um colo quente, de um beijo quente
não é amor!
É necessidade de atenção
eu fui foi pra você pensar
Pra você entender o que eu sou
eu sou é troca!
Eu sou quando todo mundo se divide...
Você pra ele ele pra ti
Entende?
Eu sou quando vocês pecam
e são cúmplices no crime
- e não testemunhas, apenas -
Dar não é amor
Eu sou doação de dois... De dois!
Por isso te deixei:
pra você me entender melhor.
Mas não esqueça de manter
as portas, janelas, os olhos abertos
porque eu volto, garota...
Ah, eu volto logo...
quinta-feira, 4 de março de 2010
Ermo.
Meu coração em ruínas...
Quieto.
(Morto)
Mas você, como um arqueólogo,
trouxe teus instrumentos e com carinho
(com o carinho de quem encontra uma civilização)
retirando o pó, a cal,
retirando as células-tronco do amor, mortas
Retirando os fósseis submersos
limpando os átrios, as árias,
Você com cuidado
me descobrindo inteira
E eu descobrindo
que, apesar de tudo,
Apesar do pó,
apesar da guerra
que dizimou a população,
apesar de mim...
Meu coração ainda bate
(você desobstruiu a passagem)
Meu coração em ruínas...
Quieto.
(Morto)
Mas você, como um arqueólogo,
trouxe teus instrumentos e com carinho
(com o carinho de quem encontra uma civilização)
retirando o pó, a cal,
retirando as células-tronco do amor, mortas
Retirando os fósseis submersos
limpando os átrios, as árias,
Você com cuidado
me descobrindo inteira
E eu descobrindo
que, apesar de tudo,
Apesar do pó,
apesar da guerra
que dizimou a população,
apesar de mim...
Meu coração ainda bate
(você desobstruiu a passagem)
terça-feira, 2 de março de 2010
À palavra escrita
Obrigada.
Obrigada, digo mais uma vez.
Muito obrigada!
Tua segurança me transpõe
teu silêncio branco de papel,
teu silêncio limpo
me abre as portas do alento
E quando escrevo em silêncio
é quando descrevo o turbilhão
o caos que são essas palavras
gritadas ao meu ouvido.
Enquanto ouço anjos sussurrando
e num gesto de carinho
me contando bem baixinho
que a paz é pegar o lápis
e escorrer para dentro do papel.
Obrigada, digo mais uma vez.
Muito obrigada!
Tua segurança me transpõe
teu silêncio branco de papel,
teu silêncio limpo
me abre as portas do alento
E quando escrevo em silêncio
é quando descrevo o turbilhão
o caos que são essas palavras
gritadas ao meu ouvido.
Enquanto ouço anjos sussurrando
e num gesto de carinho
me contando bem baixinho
que a paz é pegar o lápis
e escorrer para dentro do papel.
Querido,
a minha alma é silenciosa, de um silêncio assustador - que te vai engolindo, engolindo... E é este ser humano que lhe escreve quem, paradoxalmente, morre de medo do silêncio, como se fosse um vazio que precisa ser preenchido quando, na verdade, o silêncio é o que há quando não há mais nada para se preencher, é quando finalmente se atinge a completude.
Portanto não pense que me conhece a fundo por me ouvir falando. Saiba que você me atingirá apenas quando, por um segundo que seja, conhecer comigo um pouco do silêncio.
a minha alma é silenciosa, de um silêncio assustador - que te vai engolindo, engolindo... E é este ser humano que lhe escreve quem, paradoxalmente, morre de medo do silêncio, como se fosse um vazio que precisa ser preenchido quando, na verdade, o silêncio é o que há quando não há mais nada para se preencher, é quando finalmente se atinge a completude.
Portanto não pense que me conhece a fundo por me ouvir falando. Saiba que você me atingirá apenas quando, por um segundo que seja, conhecer comigo um pouco do silêncio.
Sobre Deus
O meu Deus é
a borboletinha
que mora no centro das nossas almas
e passa o dia todo brincando
de fazer coceguinhas
e, de algum jeito,
nos dar coragem para continuar.
a borboletinha
que mora no centro das nossas almas
e passa o dia todo brincando
de fazer coceguinhas
e, de algum jeito,
nos dar coragem para continuar.
segunda-feira, 1 de março de 2010
Peça em um ato
Primeiro ato
(Abre a luz)
Apaixonar-se
(Cai o pano)
(afinal, apaixonar-se será sempre a introdução, o clímax, o anticlímax., o desfecho, a vida...)
(Abre a luz)
Apaixonar-se
(Cai o pano)
(afinal, apaixonar-se será sempre a introdução, o clímax, o anticlímax., o desfecho, a vida...)
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